“Enquanto estas coisas lhes dizia, eis que um chefe, aproximando-se, o adorou e disse: minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe a mão sobre ela, e viverá”! [Mateus 9:18]
O cristianismo sempre foi dado muita importância as "doutrinas", de forma que ser salvo está implícito em "aceitar doutrinas corretas a cerca de Jesus", isso quer dizer que a verdade significa o "pensar correto", são as formulações teológicas sobre a explicitação da fé, que em ultima análise vai determinar o que é verdade ou o que é heresia.
Esse paradigma legitima o pensamento de que a “doutrina certa”, justifica a “crença correta”, e que pensar diferente sobre Deus, seus atributos, fora da herança dos pais da igreja é correr o risco de ser taxado de herege, ou seja, deve haver uma concordância na formulação doutrinaria, ninguém tem o “livre arbítrio” para pensar diferente, embora o livre arbítrio seja uma "doutrina" na qual o homem tem a liberdade de agir contrário ao propósito que Deus tem para ele revelado na sua palavra.
Que contradição, crer que Deus o criador dá livre arbítrio para o homem agir em oposição aos seus propósitos, mas negar o mesmo livre arbítrio do outro em contrariar uma "verdade" que até mesmo se transforma num "ídolo", pois na realidade uma “crença fixa” imóvel , torna-se uma imagem que substitui Deus.
A crença numa doutrina como infalível, dá segurança para quem crê não no Deus que se revela na doutrina, mas na doutrina que recebe a honra de "salvar" o homem, dar segurança que de acordo com a mesma doutrina anunciada só pode-se ter num Deus que está para além das "imagens", criadas pelas doutrinas.
Interessante é que os defensores da "doutrina correta", só defendem suas convicções até serem confrontados com uma circunstância que os levem ao desespero, aqueles momentos em que "o que cremos”, entra em choque com o que "acontece", pois quando a nossa confissão de fé, é confrontada com as necessidades, ai estamos dispostos a rever nossa “confissão de fé na doutrina”, quando essa não explica os acontecimentos que vão além da confissão!
O que aconteceu com o Chefe da sinagoga que na sua confissão de fé, tinha a máxima: “Ouve ó Israel o SENHOR, nosso Deus é o único SENHOR!” [Deuteronômio 6:4]. Adorar outra pessoa que não fosse o Deus que se manifestou no monte Sinai, seria absurdo, pois para um “chefe de Sinagoga”, era imprescindível observar essa doutrina!
Os discípulos de João disseram a Jesus que eles e os fariseus jejuavam, enquanto os seus não faziam isso, Jesus mostra que nele tem um novo inicio da ordem de todas as coisas, ele era o noivo e estava fazendo um “casamento” com a humanidade, era hora de festa, quando ele estivesse ausente sim, era hora de contrição, saudade, e finaliza dizendo que a natureza do reino não é uma adaptação, mas uma ruptura, tem que ser um novo começo: “remendo novo em roupa velha, causa um maior estrago, quando romper, vinho novo em odre velho, rompe-se e perde todo o conteúdo, mas somente o novo com o novo podem preservar-se”.[Mateus 9:14-18].
Uma nova ordem estava sendo iniciada, o reino de Deus chegou, e agora era hora de rever conceitos, doutrinas, certezas, era hora de fazer uma re-visão na visão, para ver que quem quisesse ser participante desse reino precisava re-visar, as suas certezas, e estar disposto a aceitar o absurdo como graça.
Jesus não veio ensinar “doutrina”, para ele essa tem apenas a função de explicitar a fé, e não era a fé em si mesma, de forma que o falar da doutrina é expressar uma verdade que se ajusta ao intelecto, mas essa não esgota no intelecto a verdade que se expressa.
Assim como Jairo que ao ter a sua filha a beira da morte teve suas convicções confrontadas com o desespero, e viu que suas “verdades eternas” eram históricas, pois na sua história ele aprendeu que agora estava de frente a única verdade e ao vê-lo: “prostrou-se a seus pés”. [Marcos 5:21].
Por falar nisso lembram-se da quase total unanimidade sobre ser contra o novo casamento do divorciado... Até que alguns dos que defendiam a doutrina da "uma só carne", ter na sua carne a separação ai...O encontro do desespero com a necessidade gerou a flexibilidade...





