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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

PARA QUEM QUER VIVER FELIZ!


“Quero ser feliz”! “Será que essa frase não é contraditória”?  O desejo não é errado em si, mas a ontologia [1] de que “ser feliz", expressa um estado, uma cristalização de êxtase, uma vida de euforia constante! Por outro lado muitos colocam sua expectativa de “ser” feliz quando alcançar uma realização, conseguir um bem, realizar algo definido como um sonho!

Essa busca coloca a felicidade como algo estático, um lugar, objeto de conquista, e nessa odisséia, voluptuosa, o ser que ainda não é, constata a cada realização, bem conquistado, sonho realizado, que não será feliz, pois felicidade não é um lugar que se chega, mas um caminho que se vai, não é um objeto que se conquista sonho que se realiza, pois a realização diminui o êxtase, o que era já não é, perde o sentido, tiveram maior sabor antes, alcançaram o ápice, e declinaram depois.

Por não entender essa dinâmica da vida, o ser humano se ilude em “ser” feliz, e de plano em planos, de conquistas em conquistas, sempre volta ao ponto de partida, êxtase, auge e declínio, nessa redoma que doma a ilusão prevalece a frustração! Se o homem não pode “ser” feliz, por não conseguir prolongar o êxtase de uma alegria, ele pode “viver” feliz, para isso ele precisa viver em outra dimensão, não meta-física, mas na física-meta, pois como ser físico e metafísico o homem precisa muito mais que circunstâncias para viver feliz!

A felicidade de acordo com Jesus está mais perto da consciência de que a “A vida não consiste em poucos grandes momentos, mas sim em milhares de pequenos momentos aos quais emprestamos significado”. [2] Jesus não apresenta códigos para uma vida feliz, tão pouco um manual com passos prefixados, mas a sua vida reflete princípios pela qual podemos nos orientar:

“E chegada a hora, pôs-se Jesus a mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ardentemente comer convosco esta páscoa, antes da minha paixão. Pois vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus“ [3]

A vida deve ser firmada em amizades, pois muito mais do que Servos, Jesus se relaciona conosco como amigo!

O momento histórico vivido por Jesus estava chegando ao seu ápice, os discípulos já haviam preparado tudo para a última refeição “foram, pois, e acharam tudo como lhes dissera e prepararam a páscoa”. [4] Esse era um dos últimos instantes de Jesus na terra antes de ser crucificado, e o que ele faz? Convida discípulos e realizar uma ceia, os participantes dos seus últimos momentos foram aqueles que andaram com ele durante os três anos de ministério.

A vida para Jesus era fundamentada em amizades, ele conhecia a importância de valorizar as pessoas e não os seus talentos, não o que elas tinham capacidade de fazer, mas a sua companhia, nos últimos momentos de sua vida ele não deu nenhuma recomendação para os seus discípulos, não estava preocupado com a produção de cada um, com o desempenho que teriam, se iriam dar continuidade a mensagem do reino, para Jesus as pessoas tinha prioridades sobre o que elas podem produzir daí vemos que não houve nenhuma recomendação, mas a ação de desfrutar os momentos apesar das circunstâncias não ser das melhores.

Com essa ação, Jesus absolutiza o paradigma de que o mais importante entre ele e o homem, não é um código de leis, com regras a serem cumpridas e sim que o Deus em-carne, desce do seu nível, iguala-se aos homens nos relacionamentos.

A cultura religiosa usa muito o termo “Servo”, mas pouco o termo “amigo”, no tocante ao relacionamento do homem com Jesus, o termo servo implica a nossa condição de submissão ao seu Senhorio, não na perspectiva feudal, e sim um “escravo”, com condições de não aceitar a subserviência, tendo a liberdade para não servir, mas opta servir seu SENHOR, por esse, ser amigo, e não déspota, submete não por coerção, mas por voluntariedade. Jesus nos elevou a condição de amigo:

“Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer” [5]

O relacionamento com os discípulos mostra que num dos momentos mais críticos, ele não passa um código de leis para a obediência, tão pouco os coage a segui-lo, mas senta a mesa com eles, e fala do seu desejo por aquele momento. Essa é a perspectiva de Jesus no tocante a ser feliz, valoriza pessoas, faz com que a companhia daqueles com quem Ele se relaciona seja de amizade.

Se o homem quiser experimentar a felicidade, precisa conscientizar-se de que O SENHOR se relaciona como amigo semelhantemente o homem também precisa se relacionar com ELE como amigo, pois o desejo de Deus é voltar aos “velhos tempos” do Éden onde face a face se encontrava para passear na virada de cada dia. [6]

Jesus o Deus que se fez carne, veio resgatar, a fonte primária do relacionamento do homem com Deus, a psicanálise diz que o homem desde o seu nascimento sofreu um “desamparo”, de forma que sempre busca resgatar essa perda.

O cerne da filosofia cristã é dar novamente ao homem o original, pois a ruptura deixou no homem um vazio existencial que somente a restituição do estado perdido, colocar novamente o homem na sua posição em cristo, essa restauração pode ser feita, pois “o verbo se fez carne e habitou entre nós”, prossigamos nessa odisséia humana, para contemplarmos como o mestre da vida, viveu e quer que vivamos para o nosso próprio bem...

Continua...
Quero dedicar essa serie de mensagens ao Pr. Ricardo Gondim.
Pela sua influência no meu pensamento que muito me ajudou na reflexão Teológica.
Que Deus o abençoe , lhe dando longevidade para continuar a influenciar essa geração!
____________________________
Notas

[1] do Gr. ón, óntos, ser + lógos, tratados. f., ciência que estuda os seres em geral; teoria ou ciência do ser;metafísica
[2] Kivitz, Ed René. Vivendo com propósitos. A resposta Cristã para o sentido da Vida. Editora mundo Cristão. 2003. São Paulo - SP.
[3] Lucas 22:14-15.
[4] João 15-13-15.
[5] Idem 22:13.
[6] Gênesis 3:8, fala que Adão e Eva na virada do dia: “Ouviram a voz do Senhor”, que andava no jardim do Éden, nesse período, a comunicação do Ser criado com o Criador, era direto, sem nenhuma ruptura, mas logo na seqüência diz: “esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homens sua mulher, por entre as árvores do jardim”.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Enfrentando as angustias da vida

Parte III
A dor como efeito pela agressão sofrida, produz um sentimento de expectativa em ver o agressor sentir a dor que você sentiu.

“Lembra-te, SENHOR, dos filhos de Edom no dia de Jerusalém, que diziam: Descobri-a, descobri-a até aos seus alicerces. Ah! filha de babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós.Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras”.(Salmos 137:7-9)

O cântico do salmista tem uma progressão cada vez mais dramática e no auge da sua dor ele exprime a angustia, falando para o Senhor não esquecer a humilhação, visto que no momento da sua dor manifestou-se a alegria naqueles que o feriam, agora ele desejava que aquela dor que  havia sentido fosse experimentada por aqueles que o fizeram sofrer, essa condição vivida pelo salmista esconde realidades que estava no fundo da sua alma, mas que ele sequer tinha consciência dos efeitos causados por esse sentimento de vingança.

O desejo de retribuição de uma ofensa é sempre maior do que a ofensa sofrida.
Ninguém que foi ferido vai desejar apenas que quem o feriu tenha a mesma medida de sofrimento, esse é um principio destrutivo na lei da retaliação, todo o mal recebido é sempre desejado a retribuição, e quando oportunamente retribuído a proporção é sempre maior em destruição do que o recebido.

“Ah! Filha de babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós”. (137: 7).

O salmista cria numa lei universal chamada “retribuição”, ele afirma com certeza que a “filha de babilônia que vais ser assolada”, era como se ele percebesse que a prática do mal é uma ação que volta para o sujeito como uma lei inexorável, mesmo com essa certeza ele não se satisfaz, pois o desejo de vingança é sempre insaciável, sempre quer mais, é tão grave esse sentimento que quando o salmista percebe que não pode ser o agente da retribuição do mal recebido diz:

“Feliz aquele que te retribuir o pago que tu nos pagaste a nós”.
Essa frase significa: “visto que não posso retribuir o mal que recebi desejo que outro faça por min aquilo que não posso fazer”, esse sentimento mostra uma dura realidade para o salmista, pois ele deseja que quem lhe fez sofrer sofra infinitamente mais do que ele sofreu:

“Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras”.
Era como se ele dissesse: “Visto que você em fez sofrer, eu desejo que você veja os seus filhos serem destruído”, você nos destruiu, quero ter o prazer em ver lamentarem a destruição dos seus filhos, o que fizeste à min, quero que alguém faça a seus filhos, ou seja, eu sofri, mas vou me alegrar em ver você sofrer infinitamente mais do que eu, o salmista conhecia o sentimento paterno, e sabia que o sofrimento de um pai é imensurável quando  presencia a dor de um filho, e fica impotente, o desejo do pai é arrancar  a dor do filho, transferir para ele, para não ver o filho sofrer, isso mostra que o salmista desejava o maior dos sofrimentos para aqueles que lhe causaram dor.

A alegria pela dor do outro mostra uma alma adoecida. (137: 9)
Para que serve o sofrimento é uma pergunta de difícil resposta para a filosofia religião e psicologia, mas o efeito do sofrimento é explicado em todas as áreas do saber, a pedagogia do sofrimento tem a capacidade de ascese,  é uma via para a purificação , é no encontro com ele que o ser humano torna-se mais humano, portanto, não dá para justificar o sofrimento na teologia, filosofia ou psicologia em qualquer área do saber, mas dá para perceber que grandes gênios da humanidade usaram o sofrimento para transcender.

O processo de humanização tem o sofrimento como pedagogo, toda-via ao andar nessa via, é preciso ver o que sem ele não se via,  tirar o positivo no negativo é justamente sensibilizar-se com a dor do outro, quem sofre tem um índice de sensibilidade mais aguçado, e ao não desejar que o outro sofra o que sofremos, pois desejar que quem nos faz sofrer sofra o que sofremos, é mostrar que não conseguimos aprender a lição para a vida, temos empatia com a dor do outro, por vermos  nele as nossas dores, esse é o efeito asséptico das dores na existência.

Dedico essa série de mensagens.
Ao querido amigo Levi.(Uma pessoa que um dia desejo conhecer pessoalmente)
Pela contribuição que tem dado ao meu crescimento na área de psicologia  com seus exelentes textos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Enfrentando as angustias da vida

 
Parte II
A beleza do que vemos nem sempre está no que vemos, pois a beleza é vista como projeção dos olhos da alma!   "Junto aos rios de babilônia”.
O cântico pode fluir diante do rio Jordão, mas fica mudo diante dos rios de babilônia, a beleza não estava nos rios de babilônia tão pouco no Jordão, a beleza estava nos olhos de quem olha, pois projeta a sua felicidade na direção do que se olha.
Um coração feliz encontra beleza no que normalmente não é considerado belo, mas na amargura não consegue ver a beleza no belo, pois a beleza é projetada pelo interior de nosso coração, de forma que se pode olhar para o belo e não ver beleza, e olhar para o não belo e ver beleza, “junto aos rios de babilônia”, eram rios de beleza superior ao rio Jordão, mas ao “sentar nos rios de babilônia”, o salmista não cantou, e sim chorou.

Uma pessoa feliz é aquela que está onde está o seu coração, não é o lugar que faz a sua alma ficar em paz, mas amar o lugar que se em que se está, não é o lugar belo em si, mas sim o amor daquele que ama, é nos olhos de quem olha que está à beleza e essa é projetada pela alegria de quem olha.

Os rios de babilônia só tinham beleza para quem tinha o seu coração em babilônia, mas para o judeu o rio mais lindo do mundo era o Jordão, não importa que seja um rio barrento, que não tenha a exuberância dos rios de babilônia, pois o coração do salmista tinha ficado muito distante, e longe do seu coração não há espaço para beleza.

O valor daquilo que amamos, só é percebido com a distância, a proximidade entre o sujeito e o objeto do amor, obscurece valor do objeto amado.
“Quando nos lembramos de Sião. Sobre os salgueiros que há no meio dela, penduramos as nossas harpas”. (137:1-2)
A palavra saudade é fruto de uma equação: “A distancia entre quem ama e o objeto amado”, somente através da ausência se percebe o valor da presença, tem razão Nietsche ao dizer: “aquilo que é próximo não é conhecido, pois como conheceríamos aquilo que nos é comum”, as lagrimas do salmista só foram exprimidas em razão da distância, só agora percebeu o valor daquilo que ele tinha tão próximo, mas não tinha a dimensão da sua importância.

O exílio foi conseqüência de não valorizar a conquista, de não perceber que o que tinha tão próximo era tão importante, precisou as circunstancias da vida o afastar daquilo que tanto amava, para então “chorar lembrando”, outrora as harpas não estavam penduradas, mas sim entoando cânticos, agora o instrumento da  alegria estava silencioso, pois faltava o ar para aquele que seria responsável em produzir a sinfonia
Angustia saudade e desânimo tomou conta do ser que cantava, agora contemplava as harpas, como testemunha da angustia vivida, esse sentimento de não perceber o valor, está na capacidade de psico-adaptação, onde aquilo que é comum está tão próximo, passa a não ser percebido, anulando a sensibilidade.
Jesus falou desse acontecimento a respeito de Jerusalém “Chegará o dia em que dirá bendito aquele que vem em nome do Senhor” (Lucas 13: 34) , naquele momento ele estava em Jerusalém, e não conseguiram ver que ele era o messias, somente na ausência seria percebido o seu valor, por isso a advertência de Jesus sobre o lamento que iriam ter ao perceber que Ele esteve tão próximo, mas não conseguiram ver, esse fenômeno é comum, somente a distância pode revelar a quem ama o valor do que se ama.
Continua...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Enfrentando as angustias da vida.


Salmos 137:1-9.
Ninguém se prepara para as adversidades da vida, somos sempre pegos de surpresa, os acontecimentos que nos causam dor, não são planejados, chegam e invadem a nossa vida,  muitas vezes estaremos onde não estará o nosso coração, e não temos força para fazer nada a impotência tira-nos a capacidade de reagir, até mesmo as alegrias de ontem, servem para aumentar a tristeza hoje, e o valor do que amamos se revela na perda, pois a proximidade obscurece a realidade da importância do objeto do nosso amor.

As nossas dores poderão ser ignoradas e a insensibilidade do outro será um risco de que os padrões impostos por aqueles que não experimentaram na sua existência as aflições, queiram que camuflemos os nossos sentimentos, então corremos o rico de nos tornarmos psicopatas, onde os sentimentos estão desconectados da realidade, de tanto esconder a realidade e mostrar a ilusão do que os outros querem que mostremos podemos perder a sensibilidade e ocultar uma expressão de dor com gestos de alegria, eliminando qualquer possibilidade de usar as dores da existência como pedagoga para nos tornar pessoas mais sensíveis.

Conviver com a insensibilidade do outro, trás o risco de nos tornarmos insensíveis, pois no momento de expressar a dor que sentimos, a ocultarmos para adequar-se aos padrões da sociedade, substituímos o momento de lágrima por um sorriso pálido, e ainda entoaremos um cântico, quando há gemidos nos recônditos da alma.

Esquecemos que o ser humano saudável é aquele que expressa a verdade dos seus sentimentos, pois aprendeu que há momentos para todas as coisas, e que se é momento de chorar, não se deve cantar, pois se cantarmos no momento de chorar, corremos o risco de gravar no cortéx cerebral , a pseudo mensagem de que para a tristeza a resposta é o sorriso, e quem é o psicopata? Se não o que perdeu a coordenação dos sentimentos, que não sente dor quando o momento é de sentir? Ou ainda mostra uma expressão totalmente contrária a que deveria mostrar?

Porque existe o sofrimento esse é um dilema da filosofia e da teologia, as religiões tentam dar um sentido nem sempre convincente, mas uma coisa é certa, o sofrimento tem função de assepsia, purifica, deixa o homem mais humano, faz ele aumentar a sensibilidade para com a dor do outro, isso porque ao sofrer, aguça sua percepção , não porque há uma sensibilidade nele, mas porque ele vê no outro a sua dor.

O Salmos 137 narra a trajetória de um homem que soube o que é ser aviltado na sua integridade, soube o que é ser exilado, viveu marcas profundas e mostra indícios do que o levou a viver num abismo de angustia. O cântico do Salmista nos mostra o que acontece ao enfrentar as angustias que faz parte da nossa existência.

 Você poderá estar, onde não estará o seu coração (137:1). “Junto dos rios de babilônia, ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião”.

O local que se encontrava o salmista era “junto aos rios de babilônia”, isso significa que ele estava longe da sua pátria, longe do desejo do seu coração, o objeto do seu desejo estava longe e quanto maior a distancia entre o sujeito e o objeto de seu desejo, maior a nostalgia, maior a dor, os rios de babilônia representa a dicotomia entre o corpo e o desejo, o desejo estava longe do corpo e o corpo ansiava pelo seu objeto de prazer.

O salmista estava experimentando a triste realidade de que a saudade é a equação da soma da distancia, com a diminuição da possibilidade, e quanto maior a distancia maior a saudade, saudade é ausência do objeto que se ama, pois a proximidade obscurece o valor do objeto amado!

O salmista experimenta algumas revelações dentro desse momento de desespero:
A pré-potencia só existe em razão da ausência da impotência, que é o antídoto para todo o sentimento de onipotência.  “Ali nos assentamos e choramos”. (137:1).

O que fazer quando se é levado por uma força maior que nos oprime, por um evento que nos tira da comodidade da vida, o que fazer quando olhamos ao lado e não vemos solução, ficamos paralisados nos sentindo impotente, nesse momento só nos resta colocar para fora toda a nossa dor.

Foi o que fez o salmista “nos assentamos e choramos”, afinal não tinha mais o que fazer, chorar é um dos momentos mais sublimes do homem, é o momento em que ele se encontra com suas limitações, e vê que ele não é onipotente, que há forças maiores que ele, esse é o momento quem se confessa ateu apela para os deuses, afinal não importa o nome que se dá ao deus, a fé surge na percepção do desamparo e consciência da vulnerabilidade: "O acaso vai me proteger enquanto eu andar distraido". O acaso também torna-se uma divindade!

Todo sentimento de onipotência parte da pré-potência do sentimento de poder fazer, é o sentimento de que nenhuma circunstância da vida irá o abater, o salmista estava se encontrando com a sua in-potência, era o momento de esvaziar qualquer sentimento de pré-potência, pois a in-potência deixa-nos com a dura realidade de que somos in-potentes para resolver muitos eventos que surgem em nossa vida.

A alegria de ontem, aumenta a tristeza de hoje, o termômetro da tristeza do presente será quantitativo a alegria que se teve no passado! (137:1). “Ali nos assentamos e choramos, quando nos lembramos de Sião”

As boas lembranças dos tempos felizes de outrora, não amenizou a dor do salmista, pelo contrário, aumentou! Isso mostra o porquê de muitas pessoas entrarem em depressão quando acometida de perdas, pois essas nos colocam num estado de nostalgia, tem a tendência de nos dominar, de nos deslocar a um tempo que ficou marcado em nossa memória, ao mesmo tempo em que aniquila qualquer perspectiva de futuro.

A alegria do passado serve para aumentar a tristeza no presente, e quanto maior a alegria vivida ontem, maior será a tristeza hoje. “Nos assentamos e choramos, lembrando de sião”! A lembrança de algo que deveria trazer alegria aumentou a tristeza, lembrar da alegria da sua terra dilacerou o seu coração!

Continua...
Essa foi uma série de mensagens pregadas que resolvi escrever.
Devido à extensão do texto a dividi em três partes.
Para não cansar você amigo da blogosfera.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Desejo de ser aceito!

Parte III

O inconsciente religioso tem desejo de conquistar o amor do Pai, essa é a gênese da neurose produzida pela religião.

Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.” (Lucas 15:17)

O filho não entendia que ser filho não é uma dignidade que se conquista e se perde, mas sim uma dignidade de herança: “já não sou digno de ser chamado teu filho”. O pai não chama o filho de filho por esse conquistar o direito de ser chamado filho, mas por que foi gerado!

Essa fala inconsciente do filho revela que na sua consciência ele perdeu o que havia conquistado, mas estava enganado, pois ele não havia conquistado depois ele não havia perdido, o problema está em que ele achava que “conquistou”, e depois “perdeu” a dignidade de ser chamado de “filho”, por conseqüência aceita ser chamado de “servo”.

O filho não conhecia o pai, achava que tudo o que ele tinha era por méritos seu, isso o levou a culpa que tem sua causa no fato de não “conseguir merecer” isso explica a sua frustração ao pedir: “dá me parte da minha herança”, quero administrar o que é “meu”, mas perdi o que era “meu”, não tenho direito de usufruir o que é “teu”, por isso: “trata-me como um dos teus trabalhadores”.

Essa fala mostra o pensamento de que o status de filho dependia dos seus acertos, e que o erro cometido iria o rebaixar a categoria de empregado; acontece, porém, que o Pai ama, e jamais trata o filho como “escravo”, mesmo que o filho mereça esse tratamento, o amor do pai não é volúvel, não diminui a proporção dos erros dos seus filhos!

Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou.(Lucas 15:20)

O desejo de conquista do amor do pai é buscado através do desejo reprimido, que fica recalcado gerando ressentimento entre: "O sujeito do desejo e o objeto que se interpõe como oposição"! (Lucas 25-29)

Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. (Lucas 27)

O filho mais velho estava no campo trabalhando, cumprindo o seu dever, obedecendo ao pai, essa era a sua gratificação, podia dizer que era “obediente”, ao se aproximar percebe um ambiente em que não estava acostumado, ao ouvir música e danças, perguntou o que estava acontecendo; a sua vida certamente era vazia de festas, não celebrava a vida, não gastava tempo com nada do que fosse “supérfluo” daí a razão para o espanto!

A religião vive na dimensão de enfatizar a “obediência” a Deus, para que assim, o homem tenha uma recompensa futura! Afinal “o nosso descanso não é aqui”! Isso tem produzido pessoas que não desfruta a vida, tudo o que faz gira em torno de uma “recompensa futura”.

Anula a capacidade de festejar o “hoje”, não vêem que o evangelho acima de tudo a mensagem de que o “pai aceita o filho”, não porque o filho esforça-se para ser aceito, obedecer por medo de transgredir, transforma o filho numa pessoa irrepreensível, mas amargo, obediente, porém escravo: “Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua”!

O filho mais velho era obediente, mas no fundo ele queria ser como o seu irmão, que ao fazer tudo o que fez, merecia “castigo”, mas recebe “festa”, era demais para ele, fugia da lógica, pois tudo que ele achava que fazia de certo não lhe deu dignidade para ser recompensado, e tudo o que o outro fez de errado, não o tornou indigno de ser recebido com festa!

O desejo de liberdade reprimido é recalcado para o inconsciente, e nessa dimensão a obediência camufla a revolta, pois a liberdade é sagrada, todo o poder que se interpõe contra o desejo de transcender pode sujeitar-se a obediência pela coerção ou medo, mas não consegue remover a ira recalcada, que vai crescendo e no tempo oportuno certamente será ventilada.

O filho que ficou obedecia o pai, mais o detestava, não sabia que "sua obediência perfeita era uma forma de revolta", pois ao perceber que todo o seu esforço não mudou nada em relação ao pai,ventilou a sua ira contida, mostrando que odiava o seu pai por há tanto tempo se esforçar e ver que tudo era vão, pois quem não se esforçou, tinha o mesmo o amor que ele, isso o levou a perceber que seu esforço foi inútil!

O evangelho não é uma religião de “causa e efeito”, pois o filho que “errou” não foi punido, o que pensava estar “certo” não foi recompensado! Não é uma questão de “errar” ou “acertar”, mas uma questão de “reconhecer”, que na presença do pai até o filho que erra é aceito com festa!

A festa anulou todo o sentido de retribuição do pai para com o erro do filho, que ainda recebeu de “Graça” manifestação de alegria pelo seu retorno, e não punição pela sua saída, isso desmontou a sua “patro-logia”. (4)

A religião trata da retribuição ao homem pelo que ele faz para a divindade, de forma que se agradar a Deus fazendo tudo o que ele gosta, terá as bênçãos desse “deus” sobre ele. O evangelho trata da aceitação de Deus pelo homem, pelo que Deus fez por ele, o homem é convidado a receber gratuitamente por aquilo que não fez, e não merecia receber.

Na retribuição quem domina é a lógica: “porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado”. No evangelho quem reina é a anti-lógica: “Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu”, não é preciso fazer para merecer, tudo que é do pai pertence ao filho, ainda que o filho não tenha consciência de que possui tudo!

O amor do pai não tem acréscimo pelo filho que fica em casa e se esforça para nunca errar, nem diminui pelo filho que sai e faz tudo errado. O amor do pai esta na paternidade, Ele ama por que é amor, inclina-se par amar o filho que gerou!
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Nota
(4) Patrologia = Patros + logia, Esse termo na teologia é uma referencia sobre a vida e obra dos pais da igreja, mas nesse caso estou dando um outro significado a essa palavra, que seria o "conhecimento doutrina ou estudo, do filho sobre o  conceito  formado pelo filho  no aprendizado que adquiriu do pai".

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Desejo de ser aceito!


Parte II


Há duas formas de sermos frustrados: Uma é não conseguir o que desejamos outra é conseguir! (Lucas 15: 11-12).


O filho que ficou viu que na presença do pai era “impossível” satisfazer o seu desejo de “liberdade”, restava ficar em casa, se acomodar a situação, fingir que está tudo bem, externar um sorriso, quando interiormente esta chorando, mas assim dá para manter o status de “filho”, seria um preço a pagar pelo estereótipo, mas a vida continuaria ser de escravo. Livre para quem o vê fazendo o “convencional”, aquilo que um filho deve fazer, mesmo que isso lhe traga na sua alma a inquietação: “Será que não seria melhor eu tentar buscar minhas realizações, longe do meu Pai?”.


Ao pedir ao pai sua parte na herança, estava implícito que o filho queria ter a liberdade de agir de acordo com as suas convicções, a fala do filho, mostra que para ele, a sua infelicidade estava em ter que agir de acordo com as normas do Pai, logo na óptica do filho o pai era responsável direto pela suas frustrações.


Mas ele teve ousadia, resolveu agir de forma que contraria a maioria, dizia ele no seu coração: “Quero experimentar por mim mesmo que é possível viver longe da presença pai”, afinal na sua presença, não há como fazer o que lhe é contrário! Só serei realizado se fizer tudo o que quero, sem ter que se sentir culpa, sem ninguém para dizer que estou errado.


“Passados não muitos dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente”. (Lucas 15: 13)


O filho que saiu desejou a “liberdade”, o direito de escolher não ficar na casa do pai, e ir para onde quiser, mas a liberdade que deixa livre para agir, nem sempre nos deixa livre depois da ação, logo ele tinha livre arbítrio, mas não liberdade, a liberdade só existe quando ela não nos torna seu escravo! Ser livre não é ter o poder para fazer o que quiser, mas ao fazer o que quiser não ser afetado pela ação, logo liberdade não pertence aos mortais somente aos deuses!


O filho “viveu dissolutamente”, ou “irresponsavelmente”, teve liberdade para fazer o que quis, mas não continuou livre depois de fazer o que fez! Vivia como escravo na casa por não poder fazer o que queria na presença do pai, continuou como escravo longe da presença do pai, pois a liberdade que pretensamente o tornaria livre o escravizou, agora era escravo da liberdade, pois a liberdade também é regida pela lei, não a lei do pai, mas a lei da consciência!


“Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome”! Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: “Pai pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores”. (Lucas 17-18)


O filho reconhece “pequei” contra o céu e diante de ti.


A definição teológica para a palavra pecado é “errar o alvo”, não atingir o propósito para o qual foi designado! “Pequei contra o céu e diante de ti”. Essa confissão se dá pelo entendimento que antes de pecar contra o próximo se peca contra Deus.


Mas a realidade é que todo o pecado se dá em “errar o alvo com o outro”, não é uma transgressão no “espírito”, pois só ama a Deus amando o próximo. (1 Jo 4: 20), da mesma forma “Deus está no próximo” errarmos o alvo para com o próximo, pecamos contra Deus, de forma que “pecar contra os céus”, é antes de tudo pecar contra o próximo!


O filho relativiza o significado de “liberdade”, pois confessa o seu desejo: “trata-me como um dos teus escravos”. Outrora na casa do pai, queria estar longe de casa e livrar-se da “presença”, agora que estava longe, sente a falta da casa e da presença, percebe que viver como escravo na casa do pai, seria melhor do que viver “livre longe do Pai”. O desejo de ser livre para fazer o que queria, cedeu lugar para a saudade de quando não fazia o que queria.

Continua..

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Desejo de ser aceito!


Parte I
E Jesus disse ainda:
– Um homem tinha dois filhos. (Lucas 15:11)

A universalidade no homem detecta um problema crônico: aceitação! Ser aceito é uma busca desenfreada na jornada existencial, tudo o que fazemos gira em busca da aceitação, as narrativas mitológicas mostram a face dessa trajetória, Abel e caim, aceitação e rejeição, aceitação de um, ressentimento do outro.

Disputa, e inveja, tudo por causa do amor do pai, Jesus na parábola inverte a concepção do gênesis onde o filho (Abel) é aceito e o outro (Caim) rejeitado, na parábola os dois foram aceitos, enquanto Abel foi aceito por ser o melhor, o filho da parábola é aceito mesmo sendo o pior! Algo sem precedente ausente na história e na mitologia, mostrando que esse desejo de aceitação pode ser saciado quando os filhos não precisarem fazer ou ser para conquistar.

Os dois filhos da parábola tinham o DNA do pai, mas não conhecia o pai que os havia gerado, não viviam como filhos, se identificavam como escravos presos na consciência de que a presença do pai, os impedia de “desfrutar” o que queria, por ser contrario ao desejo do pai, e contrariar o desejo do pai seria perder o direito de ser filho.

O filho mais novo tomou a decisão de sair, porque se sentia preso, o mais velho optou por ficar, o mais novo manifestou a sua insatisfação saindo, o mais velho ocultou a sua insatisfação ficando; mas tanto o que saiu quanto o que ficou viviam sem desfrutar a casa e a presença do pai.

O problema estava na “presença do Pai” que por não ser conhecido, era julgado como empecilho, um filho inconscientemente culpava-o por não ter o que desejava devido a sua presença, o outro, por na sua presença não conseguir festejar.

O mais novo pediu a sua parte porque sentia que não tinha nada, o mais velho, também sentia o mesmo, pois disse “Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos” (Lucas 15:29)

Essa parábola fala de dois filhos insatisfeitos, um manifestou a sua insatisfação ao sair, o outro ao ficar. O que ficou escondeu a insatisfação no silêncio, só revelou ao ver que, o que saiu conseguiu sem nenhum esforço; tudo o que ele achava que com muito esforço poderia conseguir.

O sentimento que estava no coração do “filho que saiu” podemos classificar: “insatisfação ativa”, tem o ponto positivo de que o filho foi sincero consigo e com os outros, expressou a realidade do seu interior, externou o que estava no seu coração, foi julgado pelos que o viram tomar a decisão de sair, não teve a pretensão em fazer da vida um teatro, um personagem fictício, não se importou dos outros ver nele a imagem real do seu Ser.

O sentimento que estava no coração do “filho que ficou” podemos denominar: “insatisfação passiva”, tem o lado positivo de não deixar transparecer, ninguém fica sabendo o que está se passando dentro da alma, finge estar tudo bem e recebe a aprovação de outros. Mas no silêncio, geme, deseja ter a coragem do irmão que saiu, mas o preço que tem a pagar é muito alto, perder a re “puta”-ação! Além do que acha que o Pai (Deus), não sabe das suas reais condições!

Quando o “filho que saiu” estava em casa, tinha roupas novas, símbolo de limpeza, ao voltar o pai lhe providenciou vestes limpas, símbolo da sujeira que adquiriu fora da sua presença. Perdeu o anel, sinal de filiação e passou a viver como escravo achava que era filho porque estava em casa, mas não era estar em casa que o tornava filho, pois ele tinha mente de escravo, desejava ser livre, mas transformou a “liberdade” em escravidão! Perdeu tudo ao sair, estava em casa e tinha tudo, mas não tinha consciência de que tudo tinha; achava que não tinha nada! Prova disso é que pediu a sua parte!

O filho que saiu, perdeu a sua parte, achou que perdeu tudo, estava enganado por achar que não tinha tudo, e ainda que ter “tudo” depende de estar na “casa”, mas tem tudo quem esta na “presença”! Não é espaço o diferencial, mas o “sentimento” estar na casa só é realidade se estiver na “presença”. Quem “sai” da casa pode sair da presença, mas na ausência, percebe o quanto perdeu por estar em casa e não estar na presença, mas o que está em “casa”, pode acostumar-se, ter o seu espaço, mas não dar espaço para ter a presença!

O que sai sente falta da casa e da presença, mas o que fica não sabe o real valor do espaço, não sente a falta da casa nem a saudade da presença!O filho que saiu teve tudo de volta, com a diferença que agora iria valorizar o que já tinha, mas não tinha noção do valor de filho, pois não conhecia o pai, por isso disse: “não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores”. (Lucas 15:19).

Antes achava que a estar na casa do pai era a razão das suas frustrações, queria ser “livre”, agora depois de experimentar a liberdade, o seu desejo é voltar, e como punição pelo seu erro aceita ser rebaixado para a “classe de escravo”.

A consciência punitiva do filho que aceita voltar à casa do pai para ser escravo, mostra a mentalidade escravocrata, não sabia que para o pai, filho sempre será filho, na sua casa ou longe da sua presença, filho não é filho porque acerta ou erra, mas porque foi “gerado”, pelo Pai.

O filho nada faz para ser filho, e nada pode fazer para deixar de ser, não é uma questão de “fazer para ser”, mas de “ser” independente de fazer! O filho que ficou tinha o anel símbolo de vocação, mas não vivia a vocação de filho, e sim como escravo!

Continua ...

* Aviso aos amigos da blogosfera:
Essa mensagem foi escrita tendo por base uma série de 12 pregações de aproximadamente 25 minutos cada.
Devido ser muito longa fiz a divisão em três partes, para que os textos não fiquem longo e cansativos para você leitor. Estarei postando 1 em cada semana.