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terça-feira, 31 de março de 2015

TEOLOGIA E FILOSOFIA: DEUS NA LEI DA “NÃO CONTRADIÇÃO”

O problema da Teologia nasce a partir da sistematização.

Os Teólogos pós-apostólicos, procuraram responder alguns temas como: Theontologia, Cristologia, Hamartiologia, fazendo um diálogo com a Cultura grega através da filosofia grega.

A teologia Judaica não reflete a partir dos pressupostos da filosofia. 

Podemos ver essa realidade a partir da teoria da identidade na Filosofia Grega.

Aristóteles acreditava que o “arché” (principio)  é o “Ser” a razão (logos) que é uma espécie de “motor que move tudo e não é movido”.

O Arché é a causa, é o “Ser” de Parmênides, “imutável” o ser que “É”.

Na lógica da filosofia grega, o “Ser” ou “É” ou não É, nesse principio, o Ser não pode “Ser e não Ser” ao mesmo tempo.

Esse é o principio do chamado “Terceiro excluído”.

Mas o que tem a ver o principio do “Terceiro excluído” com a Teologia Cristã?

Tudo a ver.

Vamos usar esse principio do “Terceiro excluído” na sistematização, desde os pais da igreja primitiva até os reformadores.

PREMISSA “A”  Deus  é soberano

PREMISSA “B” Deus como soberano pode salvar todos os homens

PREMISSA “C” Deus salva  todos os homens

A Primeira Premissa ou premissa maior, é uma verdade absoluta nas Teologias: Agostiniana, Pelagiana, Semipelagiana, Agostiniana, Calvinista, Arminiana e Armínio-Wesleyana.

A Segunda Premissa, também é uma verdade absoluta decorrente da afirmação da primeira, também encontra concordância com todos.

Já a Terceira Premissa, todas as tradições teológicas discordam, pois ela fere a lógica, é o “Terceiro excluído”  ou a  “Lei da não contradição”.

Veja que na lógica da Filosofia, a terceira premissa é verdadeira.

Acontece que na Teologia Cristã ela é falsa, e porque é falsa se ela segue a lógica da afirmação das duas primeiras premissas?

É ai que percebemos os limites da filosofia como interlocutora na elaboração das respostas apresentadas nas questões de fé.

A Verdade da Teologia Bíblica é que TODOS OS HOMENS NÃO SERÃO SALVOS.

Mas quais respostas dão as Teologias para a “negação” da lógica da Soberania de Deus?

É ai que começa a complicação.

As tradições Agostiniana-Calvinista vão dizer:

“Deus não salva, porque ele elegeu os que se salvariam no eterno decreto”, embora ele tenha poder para salvar, não salvará, pois já decidiu de antemão os que seriam ou não salvos.

Preservam a Soberania, mas não respondem a questão da liberdade humana, dos homens que não tiveram opção e serão condenados.

Os Semi/Pelagianos e Arminianos vão dizer:

“Deus não salva, porque o homem pode resistir a sua soberania, pois de alguma forma, Ele se auto-limita, para dar o livre arbítrio ao homem de escolher aceitar ou rejeitar sua oferta de salvação”.

Preservam o livre arbítrio, mas não respondem sobre a questão da Soberania Divina, que passou a ser limitada pelo livre arbítrio humano.

Veja que não tem solução esse impasse.

E a Teologia Judaica refletia a partir desses pressupostos?

A Resposta é Não!

O palavra “conhecer” na cultura judaica é “experimentar” na cultura ocidental é “memorizar, entender através de guardar na mente”.

No judaismo não há reflexão com base num “Futuro”, sua teologia não é especulativa, refletem a partir da experiência.

O verbo “ser” não é conjugado no presente em relação a uma pessoa.

Um judeu não diz: “Eu sou engenheiro”, mas “Eu exerço a função, ou trabalho em engenharia”.

O verbo ser não pode ser pronunciado.

No livro de Jeremias Capitulo 18, mostra que a relação entre Yavé e os Judeus é interativa:

“No momento em que eu falar, para o povo fazer o bem e o povo fazer o mal eu deixo de fazer o bem que havia prometido e vice versa”.

O futuro está em aberto, não está fechado, espera as ações dos homens para ter o seu desfecho final.

Na cultura hebraica não existe reflexão com base no futuro, pois esse não existe. (isso não quer dizer que ele não acreditavam na redenção final, mas sim, que não refletiam sobre Deus usando os pressupostos da lógica grega).

Jesus seguindo a tradição Judaica advertiu: “O amanhã se encarrega dos seus próprios males”, se referindo a ansiedade.

A pergunta é como sair dessa labirinto?

Se afirmo a soberania na perspectiva Agostiniana-Calvinista, nego o livre arbítrio humano, se afirmo o livre arbítrio humano, relativizo a soberania divina.


A resposta seria não resolver,mas, adotar outra forma de refletir, deixar a lógica grega  da “lei da não contradição” ou “terceiro excluído”, e passar a refletir a partir da afirmação no Evangelho de João:

“No principio (Arché) era o verbo (logos, razão) e esse “Ser que É”, se humanizou, se fez carne, relativou os absolutos do “motor que não se move” (Aristóteles) e se moveu, habitou entre nós (João 1.1-3; 14).

Dessa forma, a reflexão sai da dimensão atemporal e absoluta do principio da identidade que “É” (imutável) e  sem deixar de “Ser”, na humanidade foi “Sendo”.

O Deus absoluto e soberano, firmado na reflexão das premissas grega, ao se fazer carne, olhou para Jerusalém e disse:

“Jerusalém, quantas vezes eu quis te juntar como a galinha junta os seus,  mas você não quis” (Lucas 13.34).


O Deus todo poderoso que pode salvar, mas não salva, não pode ser excluído pela lógica da “lei da não contradição”, pois n’Ele não há contradição, mas sim, paradoxo, verdades que ou se aceita pela fé ou rejeita pela razão.

sábado, 21 de março de 2015

TEOLOGIA E SOCIOLOGIA: UMA REFLEXÃO FILOSÓFICA SOBRE  SOBERANIA E LIBERDADE

Na sociologia, a atuação do  Estado pode ser defendida basicamente de duas formas: 

(1) TOTALMENTE SOBERANO: (Thomas Hobbes), os países que adotaram o comunismo, fascismo, nazismo, ditadura, seguiram (ou seguem) essa forma de governo na qual chamamos de tirania. 

Nessa forma de interpretar, há pouco ou quase nenhum espaço para a liberdade do homem. 
Essa antropologia sociológica, parte do pressuposto de que o homem é mal.

(2) PARCIALMENTE SOBERANO: (John Locke), o Estado interfere, mas não totalmente, dando espaço para o homem exercer sua liberdade.

Nessa forma de interpretar, a antropologia defende que o homem é “parcialmente bom”, sendo capaz de ter liberdade para agir sem uma intervenção total do Estado.

Os países que adotam esse modelo, são todas as formas de governo onde há democracia. (sobre até que ponto há essa democracia é ponto critico de discussão acadêmica).

Na fé cristã, o relacionamento de Deus para com o homem tem duas interpretações semelhantes, contudo, no lugar do ESTADO, quem interfere totalmente ou parcialmente é DEUS.

A tradição agostiniana (eleição) e calvinista (predestinação) , defendem que, a soberania de Deus, tem que atuar totalmente nas ações humanas.

Essa tese é defendida pela seguinte razão:

“o homem é totalmente depravado é incapaz de fazer escolhas que visem o seu bem e da humanidade por si mesmo”.

A teologia é chamada de “Depravação Total”.

A tradição pelagiana, semi-pelagiana e Arminiana, entende que  se o homem exerce livremente as suas escolhas, então Deus, concede liberdade para as ações humanas, caso contrário, não se poderia afirmar que o homem teria liberdade real.

Thomas Hobbes (Soberania do Estado) e John Locke (liberdade do homem) apresentam conflitos em suas teorias, sobre até que ponto o Estado deve interferir na liberdade humana.

Agostinho e Calvino (Soberania de Deus) e o Pelágio e Armínio (liberdade humana) também apresentam conflitos entre essas duas esferas, no tocante até que ponto Deus deve intervir na liberdade humana.

Na sociologia hoje defende-se um meio termo, entre intervenção do Estado e liberdade do homem, ora o Estado interfere mais, ora da mais liberdade humana.

Na teologia há como defender ambas, como verdades “paradoxais”, ou seja, afirmações contraditórias pela razão, mas que são verdades da fé?
JAIR BOLSONARO E  MARIA DO ROSÁRIO: O PERIGO DOS EXTREMOS

O dia (09/12) ficou marcado pela polêmica que envolveu o  deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e a deputada Maria do Rosário (PR-RS).

Maria do Rosário fez um  discurso contra a ditadura e chamou o período de “vergonha absoluta”.

Jair Bolsonaro  foi para a tribuna logo após a fala de Maria do Rosário, e quando ela deixava o plenário, o deputado falou:

"Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir".

Analisando esse embate  e o histórico da relação parlamentar de ambos, percebemos que há um extremismo ideológico, e todo radicalismo é perigoso.

Se o totalitarismo da ditadura causou males, o mesmo aconteceu com o  totalitarismo do regime comunista onde foi implantado.

O  passado  deve nos servir para extrair lições e aprender que todo extremo é maléfico, para não para repetirmos seus erros.

Maria do Carmo errou ao chamar o deputado de estuprador, Jair Bolsonaro errou responder na tribuna da Câmara com uma  fala ácida, que pode promover a violência contra a mulher.

A mulher ao longo da história tem sofrido para conquistar seu espaço na sociedade. 

O   livro do gênesis registra que Deus criou o homem: “E criou Deus o homem (Adão)  à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. (Gn 1.26-27).

O nome Adão originalmente é dado tanto ao homem quanto a mulher, que receberam do Criador a missão de dominar sobre toda a criação. (Gênesis 1.28), a relação inicial era de igualdade.   

A partir da queda a mulher teria o desejo para o seu marido e o marido iria a dominar (Gênesis 3.16).

No inicio se chamavam “Adão”, após a queda surge o nome “Eva”, esse nome não foi dado por Deus a mulher, foi dado pelo homem a mulher: “E chamou ADÃO o nome de sua mulher EVA; porquanto era a mãe de todos os viventes. (Gênesis 3.20)

No antigo testamento a mulher é desvalorizada, não tinha direitos, era responsabilizada por muitos infortúnios, inclusive por não gerar filhos, efeito de estar debaixo da “maldição divina”.

Uma tradição rabínica em sua oração, chegava a  agradecer a Deus por não ter nascido mulher.

Na Grécia antiga as mulheres não eram consideradas cidadãs, ocupavam posição de inferioridade em relação aos homens.

Aristóteles tinha a seguinte opinião:  “no que diz respeito à sexualidade dos indivíduos a diferença é indelével, pois, independente da idade da mulher, o homem sempre deverá conservar a sua superioridade”.

O Filósofo entendia que as mulheres tinham deficit de carência e maturidade de espirito, e portanto, não seriam capazes de executar qualquer função que não fosse cuidar do lar.

No Império Romano inicialmente as mulheres não eram contadas nos recenseamentos, com exceção se fossem herdeiras, suas funções eram limitadas e durante muitos tempo foram submetidas a exclusão social.

Na era Cristã, a mulher teve a maior conquista em termos de valorização e espaço na sociedade, as mulheres serviam a Jesus (Lucas 2.36-38), sustentavam a obra com suas ofertas (Lucas 8.2-3).

Jesus permitiu que uma mulher de má fama se aproximasse d’ele e deu-lhe dignidade diante de uma sociedade que a desprezava (Lucas 7.37-38), enfrentou o preconceito da sociedade em sua época, quando aceitou conversar com uma mulher que tinha relacionamentos fracassados e uma vida infeliz ( João 4. 18).

Jesus faz com que as diferenças com bases nos preconceitos sejam aniquiladas, visto que n’Ele, tudo converge para a unidade:


“não há superioridade de raças (não há judeu nem grego), superioridade em posição social, (escravo nem livre) e superioridade nas diferenças de sexo, (homem e mulher), pois todos são um em Cristo Jesus (Gálatas 3.8).

A Mulher tem sido violada nos seus direitos através de interpretações distorcidas, filosofias  machistas, teologias tendenciosas, mas na pessoa de Cristo, sua dignidade é restaurada, assim como acontece com todos aqueles que aceitam a vida proposta por Jesus.



Como cristãos, nos posicionamos a favor do respeito e tolerância entre homens e mulheres em todas as áreas da sociedade.  

domingo, 1 de dezembro de 2013

contra a intolerância pelo respeito à diversidade: UMA REFLEXÃO SOBRE O PRECONCEITO RACIAL NO BRASIL*

A intolerância e o desrespeito pela diversidade, podem ser percebidos, há preconceito em relação a juventude pobre da periferia, que são associados  criminalidade. 

Jovens que mudavam totalmente a sua maneira de vestir e tinham que ensaiar um vocabulário onde harmonizasse ou ocultasse sua forma de viver no dia a dia, pois poderia ser interpretado que o fato de morar num bairro pobre, poderia atrapalhar no desempenho exigido pela função que fosse candidato a exercer.

A lei de cotas instituída pelo governo Lula que a priori tinha a intenção de corrigir uma injustiça histórica, em alguns casos fez ampliar ainda mais o preconceito para com as pessoas que na sua maioria não tinham condições de estudar em uma universidade pública, essa realidade é diagnosticada pela antropóloga Ruth Cardoso, ao observar o paradoxo existente, “pois a mesma sociedade que contribui para a ampliação dos direitos e da cidadania atua na multiplicação do preconceito”. (1997).

Essa situação de preconceito tem suas origens no que BERNARDINO (2002, p.254) chama de “mito da democracia racial ou do Senhor benevolente”, que segundo o autor, produziu algumas consequências práticas:
como não haver raças no Brasil por entender-se o conceito de raça como agrupamentos que compartilham certas características hereditárias, que não são compartilhadas como nenhum outro, como cor da pele, tipo de cabelo, formato do nariz e porte físico.  (p.254)

Segundo o autor, “assim a inexistência de raças no Brasil decorreria do processo de miscigenação que dilui supostas essências naturais originais das três raças que fundaram a população brasileira”. O jovem pobre e negro se manifesta contra esse preconceito através da música, eles se identificam, com músicas que protestam em suas letras contra toda a forma de discriminação, opressão e preconceito sofrido pela sociedade:

Nego drama, Cabelo crespo, E a pele escura, A ferida, a chaga, A procura da cura.  (Letra da música: Negro Drama Racionais Mc's). 

A letra dessa música faz uma critica ao conceito de raça, tendo como base a cor da pele, sendo uma “ferida” ou “chaga”, desde a colonização e narra à procura da “cura”, uma forma de sair dessa condição de subserviência como herança do negro escravizado. Mais uma vez, é um conceito deturpado do significado de “cor”, pois se toma a imagem ou figura de raça quando se tentar classificar a pessoa ao utilizar o termo “cor”, de acordo com Guimarães (apud Bernardino 1999, p.255), “ao se utilizar o termo cor para se classificar as pessoas reporta-se não a uma classificação objetiva da realidade, mas, uma hierarquia classificatória em que aqueles nomeados de branco são concebidos como melhores, enquanto aqueles nomeados de preto, são concebidos como piores”.

Negro drama, Eu sei quem trama, E quem tá comigo, O trauma que eu carrego, Pra não ser mais um preto fodido.  O drama da cadeia e favela, Túmulo,sangue, Sirene, choros e vela.  (Letra da música: Negro Drama Racionais Mc's).

Esse preconceito para o jovem negro tem abrangência psicológica, pois a vida torna-se um “drama”, desconfia que ha sempre uma “trama”, como efeito de carregar um “trauma” para não ser mais um “preto fodido”, mais um numero nas estatísticas, que nem sempre aparecem no ibope, como marginalizados, os que vivem as margens como efeito da injustiça social desde os tempos de Cabral. No desenrolar da musica que é uma critica contra o preconceito, o cantor associa duas coisas comuns na vida do negro marginalizado, ao vincular “cadeia e favela” como inseparáveis e “tumulo e sangue”, uma referencia a violência sofrida na sociedade.

A questão das identidades nacionais, culturais, religiosas, étnicas, linguísticas, baseadas no gênero ou em formas de consumo, adquire cada vez mais importância, segundo SODRÉ (2006, p.8), “pelo fato de que há um abismo entre o reconhecimento filosófico do outro, que é abstrato, é a prática ético-política de aceitar outras possibilidades humanas, de aceitar a diversidade, num espaço de convivência”.

O autor chama a atenção para o problema do “valor” entendido como uma orientação prática para a ação social, no valor há confrontos de equivalências, visto que nenhum valor é neutro, e todo valor é efeito das convicções e crenças de um sistema, ou seja, valor é uma significação pré-estabelecida.

Na concepção do autor pode se ver como exemplo um jovem da periferia, negro e um branco andando nas ruas a noite, uma blitz policial, certamente o negro irá ser revistado, pelo fato de ser “suspeito” a sua condição de preconceito de valores. Outro problema é a diferenciação feita pelo senso comum onde se usa a diferença para estabelecer o ponto de partida e o julgamento é a partir da “identidade da diferença”.

 Um exemplo está na roupa que identifica as pessoas relacionadas às suas crenças, e já cria uma indisposição para o respeito e o diálogo, de acordo com Sodré (2006, p.8), “o racismo apresenta-se geralmente como esse “saber automático” sobre o Outro. Os preconceitos funcionam assim na prática: valem para qualquer outra forma diversa”.

Os estereótipos culturais servem para marcar os limites entre grupos, comportam em si o risco de que o diálogo possa limitarse à diferença e que a diferença possa gerar a intolerância, as tensões do presente, entre a diferença e a igualdade, entre a exigência de reconhecimento da diferença e uma redistribuição que permita a realização da igualdade.

Quando uma pessoa tem uma atitude preconceituosa em relação a outra, está fazendo uma comparação a partir do seu padrão de referência, portanto, o preconceito racial ocorre quando uma pessoa ou um grupo sofre uma atitude de discriminação,  por parte de alguém que tem como padrão de referência o próprio grupo racial de consumo. Se alguém ousar quebrar essa lógica vai novamente sofrer do preconceito:

Me ver, Pobre, preso ou morto, Já é cultural (...) Você tá dirigindo um carro, O mundo todo tá de olho em você, morou? Sabe por quê? Pela sua origem, morou irmão?
 (Letra da música: Negro Drama Racionais MC's).

O preconceito introduz a desigualdade entre os seres humanos, podendo atingir toda a sociedade ou os membros de um povo determinado, nas palavras de  Lerner (1997, p.55):  

"em consequência dos preconceitos as pessoas diretamente ou indiretamente atingidas por eles são julgadas negativamente e colocadas em situação de inferioridade social. Desse modo deixa de prevalecer o reconhecimento moral da igualdade essencial de todos os seres humanos e fica prejudicado o direito à igualdade, que deveria ser assegurado a todas as pessoas".

Os preconceitos traficados pela sociedade de consumo traduzem uma visão de mundo que, se não for recebida criticamente, converte-se na visão de mundo dos próprios consumidores. Nessa dimensão adverte Lerner (1997, p.36),  “ai dos negros africanos, ai dos pobres, ai dos que não podem comprar: eles jamais serão vistos como cidadãos, jamais serão vistos como seres humanos iguais aos seres humanos que usufruem das delícias do consumo”.
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ReferÊncias
ALLPORT, G.W. (1979). The Nature of Prejudice. New York: Addison Wesley.
DEMAND, Peter. “direitos para os excluídos” in PINSKY, J. História da cidadania SP. contexto editora, 2003. 
SANTOS, Helio. “Discriminação Racial no Brasil”, Laboratório de Políticas publicas UERJ, Rio de Janeiro ão Paulo, Cia das Letras, 1998.
Bernardino, Joaze. “Ação Afirmativa e a Rediscussão do Mito da Democracia Racial no Brasil” in
http://www.scielo.br/pdf/eaa/v24n2/a02v24n2.pdf
Estudos Afro-Asiáticos, Ano 24, nº2, 2002, pp. 247-273. Ação Afirmativa e a Rediscussão do Mito da Democracia Racial no Brasil.

Lerner, Julio. O Preconceito/ editor - São Paulo. Imprensa Oficial do Estado, 1996/ 1997.

Disponível em

http://www.defendebrasil.org.br/novo/img/pdf/preconceito_.pdf (acesso em 25.08.2012)

UNESCO Relatório Mundial  “Investir na diversidade cultural e no diálogo intercultural” (2009).

Programa  Extra- classe 22  -  Boaventura de  Souza Santos  -  1 parte - Disponível em

http://www.youtube.com/watch?v=p7Jnm85ukow

Programa Extra- classe 22  -  Boaventura de  Souza Santos  -  2 parte- Disponível em:

http://www.youtube.com/watch?v=InZ916_1uBU&feature=endscreen 

Negro Drama - Racionais Mc'sDisponível em: http://letras.mus.br/racionais-mcs/63398/

Acessado em 12 de Setembro de 2013
* Trabalho realizado no Curso de Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo – UMESP

sábado, 30 de novembro de 2013

UMA REFLEXÃO SOBRE VELHICE DESCARTÁVEL E A SUPERVALORIZAÇÃO DA JUVENTUDE NA MODERNIDADE.

A propaganda começa com uma Senhor falando :

- 140 anos trabalhando aqui e ainda fico abismado como a cerveja é gostosa.

O jovem entra na conversa e diz:

- Falando em gostosa, vocês não querem fazer um comercial com mulher gostosa né?

O Senhor que havia falado que há 140 anos trabalhava na cervejaria  responde:

- Não!

O jovem então pergunta:

- O que a gente faz então para deixar a nossa propaganda mais jovem?

Outro Senhor pergunta:

 - De novo?

O primeiro que iniciou o diálogo diz:

- Você pode fazer o que quiser só não mexe com a cerveja!

O outro Senhor levanta o dedo e diz:

- E nem com a Dona Yolanda!

Aponta com a cabeça para o lado em direção uma Senhora que está sentado do outro lado, dá uma pausa e com um sorriso diz:

“Tô pegando”!

Há dois conceitos que retratam o fenômeno que vivemos na modernidade em relação a juventude e velhice:

O 1° conceito: 


A enfase inicial que ressalta o valor da tradição, o tempo como algo que pode preservar a qualidade.


Um século e meio, fala da “velhice”  uma valoração da  tradição  como uma necessidade psicológica de duração, de segurança.


Segundo  Giddens (1990, p.107): 


“A tradição contribui de maneira básica para a segurança ontológica na medida em que mantém a confiança na continuidade do passado, do presente e futuro, e vincula esta confiança a práticas rotinizadas”.


Há uma defesa da tradição, da  preservação dos costumes no tempo, onde separa beber desvinculado a mulheres seminuas, como é feito normalmente nas propagandas.


A cerveja não foi afetada pelas mudanças da modernidade, a tradição resistiu ao tempo.


O 2° conceito:


 A propaganda  faz uma apologia a preservação da tradição, ao mesmo tempo em que a contradiz.


Isso acontece quando outro senhor dá continuidade, mostrando que  o tempo preservou o valor ao dizer:


- E nem com a  Dona Yolanda!


A Dona Yolanda e a Cerveja são colocadas como sinônimo de valor imutável, não afetada pela modernidade, a tradição que resiste ao tempo.


Mas quando o Senhor faz uma pausa e diz:

- Tô pegando!

Ele mostra o processo de desconstrução da tradição frente a modernidade,  ao utilizar um termo que mostra as relações frágeis.


Esse é o fenômeno da  “modernidade liquida”, onde as relações são fluidas e pouco duráveis.


Na concepção de Baumann (2003):


“Os fluídos movem-se facilmente, quer dizer: simplesmente “fluem”, “escorrem entre os dedos”, “transbordam”, “vazam”, “preenchem vazios com leveza e fluidez”. 


Desvalorização da velhice e uma  tentativa de eternizar a juventude.


A juventude é supervalorizada e a velhice é sinônimo de invalidez e objeto descartável.


Vivemos num mundo em que as pessoas têm medo envelhecer, por isso o Senhor que valorizou a “Dona Yolanda” que também tinha a sua faixa etária, a desvalorizou quando disse:


- “Estou pegando”!


Estar “pegando alguém", não é algo da tradição  é fenômeno  da modernidade.


Essa é a desvalorização do durável e a supervalorização do descartável.


"Pegar" conota objeto e não pessoas.


Nesse drama existencial é que surge uma das industrias que mais faturam no mundo capitalista.


A industria de cosméticos para ocultar os traços da velhice.

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Referências.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

GIDDENS, Anthony.  As consequências da modernidade.  Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro. RJ. 1997.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

PAULO FREIRE: UMA REFLEXÃO SOBRE OS DESAFIOS ATUAIS DA PRÁTICA 
DOCENTE*

A pedagogia do oprimido na concepção de Paulo Freire tem como premissa básica: “o ser humano tem capacidade e potencialidade para ser o protagonista da sua história”.

Contudo, é necessário, que haja conscientização de que uma transformação realmente eficiente não vem de fora, como algo pré-dado, mas sim, uma consciência com base na reflexão através de todas as experiências de vida adquirida.

A partir do axioma da valorização da pessoa como indivíduo com potencial para a liberdade, a pedagogia do oprimido contesta a visão bancária de ensino, que tem seus postulados na historiografia positivista, de hierarquia.

Nessa visão, o ensino é visto como gradativo, pode ser classificado o grau de conhecimento de acordo com os cursos efetuados.

Nessa óptica o professor (mestre) detém o conhecimento, e o aluno é o receptáculo desses “conhecimentos intelectuais”, metafísico, desconectado da história.

Essa visão remonta ao conceito de “conhecer” da filosofia grega onde o mundo precisava ser interpretado, e o sujeito se ajusta a ele, em oposição à historiografia marxista, o mundo precisa ser transformado.

Não há passividade entre o sujeito e o objeto do estudo, ambos interagem numa dialética, e o conhecimento está sempre em movimento, em construção.

A pedagogia do oprimido apresenta uma visão diametralmente oposta ao sistema vigente da educação classificada por Paulo Freire com “bancária”, onde a violência dos opressores leva a desumanização dos oprimidos, a uma vocação do “ser menos” pelo fato de distorcer o significado de “ser mais”.

Nas palavras de Freire (1987, p.33):

a narração de conteúdos que por isso mesmo tendem a petrificar ou fazer-se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade, narração ou dissertação que implica num sujeito – o narrador e em objetos pacientes, ouvintes-os educandos.

Paulo Freire adota sem duvida em sua pedagogia do oprimido a historiografia Marxista pelo fato de que para ele o “conhecimento” não é algo que vem pronto, não é patente do educador, mas, um movimento, um diálogo de experiências de quem transmite, e quem recebe a transmissão, de forma que não há passividade por parte de quem “aprende”.

Denunciando a falha e a precariedade do sistema educacional, Paulo Freire fala da finalidade desse sistema de ensino. 

Preservar a situação de que são beneficiários e que lhes possibilita a manutenção de sua falsa generosidade (...)  Por isto mesmo é que reagem, até instintivamente, contra qualquer tentativa de uma educação estimulante do pensar autêntico, que não se deixa emaranhar pelas voes parciais da realidade, buscando sempre os nexos que prendem um ponto a outro, ou um problema a outra. (FREIRE, 1987, p. 34).

Paulo Freire instiga o leitor a pensar numa alternativa para a educação, aonde ela venha proporcionar ao estudante uma oportunidade de libertação, e isso seria a melhor forma de humanizar as pessoas.

Sobre as condições do estudante no sistema bancário,

a sua domesticação é a da realidade a qual se lhes fala como algo estático pode desapertá-los como contradição de si mesmos e da realidade. De si mesmos e da realidade, de si mesmos ao se descobrirem, por experiência existencial em um modo de ser inconciliável com a sua vocação de humanizar-se. Da realidade, ao perceberem - na em suas realizações com ela como devenir constante. (FREIRE, 1987, p. 35).

Os oprimidos são destituídos do seu direito a autonomia, enquanto os opressores sempre lutam para legitimar e perpetuar o seu “direito” de opressão.

Opressores e oprimidos atuam em lados opostos, formando dois pólos onde os opressores lucram com a desumanização dos mais pobres, visto carregarem em si sentimentos egoístas de individualismo e desigualdade.

Nesse caso a solidariedade que muitas vezes são manifestadas pelos detentores são ilusórias e interesseiras, uma forma de manter a opressão mascaradas por atos de solidariedade.

O grande desafio está no fato de que o oprimido é o hospedeiro do opressor, a sociedade juntamente com a educação tradicional inserem modelos dentro das pessoas, o que acontece segundo Freire (1987, p.34):

ao receberem o mundo que neles entra, já são seres passivos, cabe a educação passivá-los mais ainda e adaptá-los ao mundo. Quanto mais adaptados para a concepção “bancária”, tanto mais “educados” , porque adequados ao mundo.

É preciso dar ênfase ao fato de que os homens são pessoas e como pessoas são livres e eximir-se de fazer com que essa afirmação seja uma realidade é uma farsa.

Pedagogia do oprimido leva a proposta de uma autonomia, uma reflexão que possa fazer uso da critica, assim possibilitará o homem ser o protagonista da sua história, é preciso uma interação dialógica e igualitária entre as pessoas para haver possibilidade de criar-se uma consciência coletiva na construção do novo.

Mas para isso é preciso desconstruir as estruturas fundamentada no modelo tradicional. É preciso uma educação oposta a qual o autor denomina de “problematizadora” em oposição a “bancária”.

 Nesse sentido a educação problematizadora, já não é o ato de depositar, ou de narrar ou de transferir “conhecimentos” e valores aos educandos, meros pacientes, à maneira da educação bancária, mas um ato cognoscente como situação gnosiológica, em que o objeto cognoscível em lugar do termino do ato cognoscente de um sujeito é o mediatizador de sujeitos cognoscentes.

Educador de um lado, educandos, de outro, a educação problematizadora coloca desde logo a existência da superação da contradição educador educandos.

Sem esta não é possível à relação dialógica indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em torno do mesmo objeto “cognoscível”. (FREIRE, 1987, p.39).

Um dos fatores a ser revisto é o conteúdo programático da educação, como fruto de um diálogo, de uma inquietação acerca do conteúdo. Não como uma imposição, mas, uma doação.

Segundo o autor, não é um conjunto de informes a ser depositado nos educandos, mas uma devolução sistematizada e organizada de acordo com a visão de mundo e cultura que tenha o povo para que não se torne uma “invasão cultural” e isso ocorre mesmo sem que haja intenção.

O conteúdo programático é um dos maiores obstáculos, pois, muitas vezes não abordam a situação presente e existencial do homem, é preciso que o conteúdo seja concreto, que venha refletir as aspirações do povo, que possa desafiar e exigir uma resposta não só na dimensão intelectual, mas de ação.

Na pratica docente é preciso acima de tudo mudar o paradigma do educando como o que detém o conhecimento e o estudante como o que apenas é um receptáculo passivo.

Há uma necessidade de compreender o ser humano como um ser complexo, que seu aprendizado deve ser interativo, participativo.

Considerar que para o educando ter a capacidade de assimilar e levar para a dimensão prática os conteúdos é preciso levar em conta a sua história, sua complexidade, como anseios, desejos, e seu contexto na sociedade.

O Educador precisa assumir o seu papel como facilitador do processo de libertação do educando, levando a uma reflexão critica dos pressupostos já internalizados nele.

O educando precisa ser confrontado com o seu papel na história, ser despertado a assumir a posição de protagonista, ter uma participação critica, como forma de mudar a sua realidade.

Pensar só é certo quando o é feito criticamente, o ato de pensar não pode estar desconectado da ação.

Teoria e práxis são indissociáveis, de forma que a práxis legitima a veracidade da teoria, a desconexão transforma o ensino em metafísico, anacrônico, subjetivo e em última análise paralisante e legitimador do status quo predominante.

O educador na atualidade tem o desafio de ser democrático, no sentido que reconhecer os educandos como sujeitos, defender sua liberdade, e assim atuar como mediador oferecendo ao educando a oportunidade de ter uma consciência critica e transformadora.
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REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1987.

*Curso de Ciências Sociais. Universidade Metodista de São Paulo - UMESP

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A  EDUCAÇÃO NO CONTEXTO NEOLIBERAL: UMA REFLEXÃO SOBRE A MERITOCRACIA NO ENSINO PÚBLICO*


O gerenciamento por metas versus objetivos defendidos pela secretaria de educação Maria Helena Guimarães de Castro, além de não melhorar a educação, certamente agravará o sistema de ensino. Isso porque nessa perspectiva adotada pela ideologia neoliberal, coloca como causa a as praticas pedagógicas e os professores.

Jogam a culpa pela situação vigente na falta de esforço individual e pedagógica dos professores e a falta de interesse dos alunos.

Esse modelo transfere a responsabilidade do estado como agente responsável por uma  política de melhoria na educação,  para a responsabilidade individual do educador e a meritocracia do aluno no seu desempenho ignorando as políticas governamentais como produtoras da exclusão através de suas políticas na educação.

A proposta da secretária da educação em promover uma “competição meritória” entre professores para estimular o melhor desenvolvimento no ensino, é arbitrária, isso porque ignora as condições desfavoráveis enfrentadas pelos professores em toda a estrutura do ensino publico, essa transferência de responsabilidade é injusta, pois, ignora as condições de cada um na sua individualidade.

Alunos e professores nesse caso serão penalizados, pois irão sofrer concorrência desleal, desde a sua formação não são oferecidas condições iguais. Esse modelo neoliberal que tenta levar a escola à dimensão de mercado promovendo a competição meritória  é descrita da seguinte forma:

Em suma, os governos neoliberais deixaram (e estão deixando) nossos países muito mais pobres, mais excludentes, mais desiguais. Incrementaram (e estão incrementando) a discriminação social, racial e sexual, reproduzindo os privilégios das minorias. Exacerbaram (e estão exacerbando) o individualismo e a competição selvagem, quebrando assim os laços de solidariedade coletiva e intensificando um processo antidemocrático de seleção "natural" onde os "melhores"" triunfam e os piores perdem. (Pablo Gentili).

A nossa sociedade é dicotomizada, e os considerados “melhores”  estão de certa forma predestinados, esses são as classes privilegiadas, as que detêm o poder e os “piores”, são as classes subjugadas num contexto de pobreza que na maioria das vezes lhes é negado às mínimas condições de viver com dignidade.

Na visão neoliberal apresentada pela secretária da educação do estado de São Paulo, “ao ignorar méritos e deméritos, ela deixa de jogar luz sobre os mais talentosos e esforçados e, com isso, contribui para a acomodação de uma massa de profissionais numa zona de mediocridade. Por isso, demos um passo na direção oposta”. 

Esse axioma tem postulados no “mérito individual” do sujeito na sociedade como se somente uma pessoa pudesse reverter o processo que tem variantes sociais, é uma visão simplista e reducionista, achar que com o modelo de competição, estimulando talentos individuais irá solucionar um problema de estrutura.

Maria Helena usa como  base para afirmar a sua tese sobre o bônus para o professor que mais se destacar diante a metodologia de prêmios e fala de como premiar os profissionais mais presentes ao mesmo tempo excluir os mais faltosos, o que é uma boa proposta, contudo, não se deve esquecer que as condições básicas de Nova York desde a escola primária, e o sistema educacional americano oferece condições para que esse professor que tenha interesse em melhorar realmente consiga alcançar esse estágio proposto pelo sistema educacional.

A secretária deveria fazer uma comparação quantitativa de investimento em Nova York com o estado de São Paulo, daí verá que as realidades são diferentes, principalmente a prioridade ao setor educacional adotada pelo referido estado americano em comparação com o estado mais rico do país.  

“O Brasil ainda está pouco habituado a encarar as políticas para a educação voltada pra os alunos”. (Maria Helena).

Essa afirmação é absoluta, contudo, no contexto em que a secretária faz, ela particulariza, como se a realidade dessa afirmação, tivesse sua causa somente nos  professores.

Os alunos merecem uma boa aula, isso é indiscutível,  devem-se premiar os professores  mais ativos no ensino, os que menos faltam isso podem ser feito; contudo é reducionista deixar nas entrelinhas que o ambiente e as péssimas condições das instalações e a falta de do mínimo necessário para que isso ocorra, não influencia ou até mesmo determina as precariedades do ensino.

O modelo educacional proposto por Maria Helena tem sua configuração na perspectiva neoliberal, com sua lógica de mercado, de acordo com Pablo Gentili:

"A lógica competitiva promovida por um sistema de prêmios e castigos com base em tais critérios meritocráticos cria as condições culturais que facilitam uma profunda mudança institucional voltada para a Configuração de um verdadeiro mercado educacional".

Superar a crise implica, então, o desafio de traçar as estratégias mais eficientes a partir das quais é possível construir tal mercado.

As reais intenções do sistema neoliberal é ter um “controle de qualidade” sobre a qualidade de “serviços” educacionais, para que assim possam levar o sistema a se conectar com as demandas do mercado.

Isso pode ser visto pelo fato de que promove a exclusão dos “menos” capacitados, pois a forma de “avaliar” tem sua base na historiografia positivista, no seu tecnicismo, entende que a capacidade de uma pessoa pode ser “medida” de acordo com uma ciência exata, com isso, tenta  promover a individualidade, contudo, sua metodologia contraditoriamente é uma tentativa de “igualar” o ser humano, ao tentar o avaliar, através de um sistema promotor de uma “igualdade” no tocante a capacitação dos professores.

Essa teoria contraria  a própria tese de que é necessário esforço para que todos alcancem o mesmo nível de e sejam premiados.

A crise no sistema educacional não é gerencial, mas da democratização, que produz a exclusão, não será o incentivo a “livre concorrência” o fator que irá solucionar o problema estrutural, que precisa de maior flexibilidade para  produzir o mínimo de equidade. Equidade essa defendida pela política neoliberal como efeito do sistema educacional ser ajustado as demandas do mercado de trabalho,  quando o inverso é que pode produzir a chamada equidade: o sistema educacional promover a empregabilidade.

O investimento com verbas públicas seria  eficiente se investido na estrutura  básica de saúde, alimentação, saneamento básico, para assim dar ao estudante condições para se desenvolver na escola. Colocar a educação vinculada ao sistema de competição é um equivoco pelo fato de ignorar que a exclusão social é justamente produto da competição predatória imposta pelo mercado, que na ênfase de promover a individualidade, produz segregação, separação, promove violência por negar os direitos mínimos aos mais pobres e excluídos do sistema.

Esse processo tem uma função ideológica fundamental para a reprodução das relações sociais, baseada no mérito pessoal, demonstrando a todos os setores que existe igualdade de condições entre professores.

A ideologia do método da secretária da educação tem nas entrelinhas a perpetuação da reprodução nas relações sociais, o mérito pessoal deixa explicito a pseudo imagem de que há igualdade de condições entre os professores, sendo assim, “confere aos privilegiados o privilégio supremo de não aparecer como privilegiados”. (Bourdieu 1982, p. 218).

Transferindo a responsabilidade para aqueles que segundo a lei da “punição e castigo” são os deserdados, irresponsáveis e culpados pelo desempenho na sua função, penalizando-o pela “ausência de esforço” na competição do mercado educacional.

A solução deveria partir na busca de políticas que promovam maior inclusão, diminuírem a desigualdade,  e não promover uma luta desigual, excludente e predatória.

*Trabalho realizado no Curso de Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo - UMESP 
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Referências
GENTILI, Pablo. Neoliberalismo e educação: manual do usuário. Disponível em: http://www.cefetsp.br/edu/eso/globalizacao/manualusuario.html

Entrevista com a Secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, publicada na Revista Veja, disponível em:

BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 2ªed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982.