Top blog

Top blog
Jl-reflexoes

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Zeus, Yavé ou Jesus?

As definições teológicas que fazemos a respeito da pessoa de Deus são realmente conceitos veterotestamentário, Neotestamentário, ou uma mistura de tudo, não será uma definição mais perto do deus Zeus, que o Yavé dos hebreus? E muito menos ainda do Jesus encarnado? Essa teologia é firmada numa revelação dialética, ou um processo estático?

 Enquanto Zeus fica numa redoma intocável, observando o mundo de forma indiferente, o Deus Yavé, sempre se revelou numa esfera existencial, relacional, não numa forma de silogismo filosófico, onde a transcendência deixava o “deus” totalmente ausente da vida humana, onde o homem vivia apavorado, sempre buscando aplacar a ira do seu “deus”, diga-se de passagem, que esse Deus grego sempre esteve irado!

 Se voltarmos às origens da teologia determinista, veremos que os judeus já tinham esse pensamento exclusivista de “Eleição incondicional”, ou “Predestinação”, no entanto vemos o Deus Yavé sempre os exortando, ao arrependimento, diga-se que não foram poucos os cativeiros que o povo passou.

 Basta ver que mesmo em cativeiro o povo achava que Deus os tinha abandonado, essa era a consciência que eles tinham, pois responsabilizavam Deus por suas decisões, como se suas decisões fossem responsabilidade de Deus. Ignorando que esse Deus que eles achavam que era responsável por seus infortúnios, sempre mandava profetas para adverti-los de seus maus caminhos [1]

 O apóstolo Paulo faz uma severa advertência para com a segurança excessiva de Israel, dizendo que os “ramos” foram cortados quanto mais seriam os que foram “enxertados”, também terão o mesmo destino se não perseverarem. [2]

 Vemos a mesma advertência de Jesus [3], embora seja inegável a contribuição de Agostinho para a teologia, não podemos negar que o conceito grego determinou sua definição sobre a natureza de Deus, foi a helenização do contexto de sua época que sem dúvida moldou a sua mentalidade de forma que Deus sempre foi definido como alguém que sempre está na esfera da meta-física!

 Será que o deus da filosofia é o Deus que se revelou a Abraão, Moisés, e os profetas, que sempre mandava uma mensagem dentro de um arcabouço histórico? Colocando nomes da sua pessoa de acordo com a circunstância do momento, pois se o homem estava enfermo, logo ele se revelava como o Deus que cura numa guerra ele se identificava como o Deus dos exércitos, tanto de forma coletiva quanto de forma individual.

Ele se revelava de forma relacional, alcançando seu ápice na encarnação “o logos transcendente, agora torna imanente”, pois esse logos que era atemporal decidiu agora ter um início de existência, sujeitando-se às leis que ele mesmo criou, subjugando-se aos limites que com certeza o “deus grego”, não se submeteria!

 O Deus transcendente dos gregos era intocável, inacessível, o “Logos”, que eles conheciam imutável, não tinha uma existência relacional, dialética, não interagia com a criatura.

Se partirmos do pressuposto vetero-testamentário que a revelação de Deus é progressiva e obteve seu auge no filho [4]. Então devemos rever nossos conceitos de que uma premissa verdadeira sobre Deus deve ser esgotada com afirmações e possibilidades de um Deus que a própria reforma defende ser “Onipotente”. Os conceitos teológicos formais são tentativas de assegurar as premissas ocultas por trás do conteúdo bíblico [5]

 Deus não é apenas metafísico, “anacrônico”, mas um Deus que “age”, decidiu voluntariamente ser temporal, experimentando uma curta existência terrena, como é comum aos seres humanos. Ele “interage” na história, quando Deus se revelou a Moisés ele não elaborou proposições acerca de seu caráter, mas mostrou o seu poder com “ação”.

Ou seja, ele não disse que era onipotente, mas agiu na história; manifestou-se ao próprio Moisés a quem Ele mesmo se revelou [6]. O que nos salva não são verdades formuladas em frases, mas Deus mesmo se dá como salvação.

A Epistemologia helenista vê a verdade como algo estático, como um pensamento, o “conhecer” independe do “fazer”, dessa forma o mundo não pode ser transformado pela participação humana, pois ele foi criado por Deus que decretou tudo (Até mesmo o mal?!).

Contempla tudo ocorrendo como planejou conseqüentemente as orações são subjetivas, e porque agir, se tudo vai acontecer independente da ação humana? Na cosmo-visão grega de Deus, a “teoria” é o que importa, a “práxis” é somente um efeito, da causa primária que é Deus.

Essa epistemologia é contraditória a teologia cristã, pois a verdade não é somente “teórica”, tampouco “abstrata”, mas sim “histórica”, a verdade “Veio" [7] e somos instruídos a praticá-la [8]. Os religiosos dos tempos de Jesus conheciam a lei e suas ordenanças, no entanto Jesus os advertiu que o conhecimento da verdade incluía uma atitude prática [9]. “Na Bíblia, porém, há um conceito de verdade diferente e fundamental: A verdade é o que acontece, aquilo que Deus faz [10]”.

 Não é de se estranhar que Marx chamou o cristianismo que ficava alienado dos eventos históricos de “Ópio do povo”, do ponto de vista dicotômico em que os reformadores viam a matéria, onde o “Espírito” era bom e a “Matéria”, era impura, (diga-se de passagem, que esse também era o conceito de origem gnóstica oriunda dos gregos, visto que na teologia reformada o pecado é herança determinada [11], é lógico que a igreja não deveria se envolver com obras de cunho social (por ex: como política), visto que a Igreja deveria viver uma espécie de “Ultra-mundanismo”.

O alvo era somente manter o espírito puro, o que fez com que a Igreja ganhasse muitos antagônicos à sua teologia. (Os mosteiros foi o efeito de uma teologia Utópica de ultra-mundanismo). C. René Padilla faz uma observação sobre esse pensamento:

“A salvação futura da alma, na qual o sentido da vida temporal se esgotava numa preparação para o “ultramundo”, a história é assimilada por uma escatologia futurista e a religião se converte num meio de escape da realidade presente. O resultado é o total desconhecimento dos problemas sociais, em nome da “superação do mundo”.[12]

Esse conceito de “conhecer” é antitético ao conceito vetero-testamentário, haja vista que “conhecer”, para o judeu não é pensar de forma abstrata e filosófica, mas a uma ocorrência pessoal, como por ex; expressa o termo “Yada”, usado como forma de conhecimento numa relação conjugal. [13]

 “O conhecimento no AT, não fica na esfera da meta-física, mas é algo recíproco, Deus se dá a conhecer revelando ao homem a sua vontade e reagindo quando este não corresponde com as suas expectativas”. [14] Rudolf Bultman fez a seguinte observação quanto à epistemologia do A T:

 “O conceito do conhecimento no AT, não é determinado pelo pensamento de que a realidade daquilo que é conhecido é mais puramente percebida se o relacionamento, pessoal entre aquele que conhece e o objeto do conhecimento é eliminados, e o conhecimento reduzido a um olhar à distância. O oposto é verdadeiro; o conhecimento ocorre se o significado e a afirmação do objeto do conhecimento são percebidos e efetivados" [15]

 Essa definição de Bultman está de acordo com a teologia Bíblica, pois a salvação não consiste em acreditar que é eleito, calando sua “segurança” numa série de proposições estáticas, mas na firme convicção de que o Deus que não exclui a filosofia como um meio de revelação, vai além da lógica de qualquer premissa por mais verdadeira que seja.

 Se Deus é tão poderoso como acreditamos que Ele é, então temos que conviver com paradoxos que a nossa mente não conseguira conciliar.

“A fé em seu sentido primário consiste na adesão total ao Deus vivo e não simplesmente na aceitação de um credo de proposições, no depósito da fé, estão contidas as verdades necessárias a nossa salvação, a teologia possui uma função de explicitação das verdades deste deposito sagrado procurando o novo entre os vários mistérios e sua articulação com a razão humana”. [16]

A Teologia deve ser dialética e não estática, universalizar um dogma pode levar à paralisia denominacional, onde o “orgulho”, de se denominar “ortodoxo”, muitas vezes faz com que Deus levante outros para dar continuidade onde o “ufanismo”. Estagnou!

 Somente Deus pode falar D’Ele mesmo, e dizer que tem a “patente” da Teologia, pois sem dúvida ele tem a verdade absoluta daquilo que fala; o que nós falamos D’Ele são “verdades”, (mas não absolutas no sentido de esgotar todo o conhecimento daquilo que falamos!), pois poderão tornar-se até contraditórias se não olharmos essas “verdades” com outras verdades que são até mesmo paradoxais no falar de Deus.

Deus é o Deus, que está “ativo na história”, realizando conjuntamente com o homem a restauração de todas as coisas.
___________________________________________
Notas
[1] Jeremias 17:7-10
[2] Romanos 11:11-24
[3] João 15:1-6
[4] Hebreus 1:1-3
[5] Bruner: 1984 p.154
[6] Êxodo 4:1-7[7] João 1.17 Veja que o texto diz que a lei foi dada por Moisés, isso não que dizer que não havia verdade na lei, mas sem a graça de Jesus essa verdade não poderia ser experimentada no âmago da experiência prática.
[8] A verdade como teoria, não foi excluída por Jesus, no entanto, Ele mostrou que a verdade pode também ser conhecida quando alguém praticar os seus mandamentos, ou seja, as práticas dos seus mandamentos é uma forma de se “Conhecer a verdade”. Cf João 3.21.
[9] João 8.34
[10] Shuarz, op.cit. Bruner. p.59.
[11] Creio que houve uma perda da retidão original, uma inclinação natural para o egoísmo, a satisfação própria, no entanto, não creio que esse pecado depravou o homem totalmente, como ensinava Agostinho, e em continuidade da sua teologia a reforma aderiu a essa concepção. Embora compreenda a que os reformadores quiseram defender o sinergismo na salvação no contexto da Igreja Ocidental.
[12] Padilla: 1992.p.33
[13] Gênesis 4:1
[14] Gênesis 6:6, 1 Samuel 15:11, Salmos 50:16-21, Amós 7:3
[15] Bultman: 1953.p.697
[16] Boff: 1981.pp. 80-81

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Arquétipos que estruturam a religião

Jesus percebeu estrutura opressiva da religião, viu o mal que ela causava, e agiu em oposição a ela, o vicio sempre foi o “PODER”, uma estrutura arquetípica [1] construída através da lei, desde os tempos do "fruto do conhecimento do bem e do mal”Ele lutou contra essa estrutura psicológica, relativizou todo o poder que domina, mostrou a FORÇA da NÃO FORÇA, não só como o amor supera a lei, mas que o amor é maior lei, e que há um PODER maior do que o PODER é o PODER DE NÃO TER PODER!

Lucas registra uma série de acontecimentos a partir do capitulo 17: 11, falando da oposição entre a HUMILDADE do estrangeiro que ao ser curado da lepra volta para AGRADECER, esse não era judeu, “E prostou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era Samaritano”. (Lucas 17: 16). Nessa narrativa, o rejeitado, é aceito a GRATIDÃO, é ANTÍ-TESE da AUTO-SUFICIÊNCIA!

Creio que essa narrativa foi registrada pelo INCONSCIENTE de Lucas ele estava des-construindo a epistemologia do PODER QUE OPRIME, para a SUAVIDADE DO AMOR, ainda na seqüência, Lucas registra que Jesus quebra a apocalíptica judaica de PODER, interrogado sobre a vinda do reino, ele desconstrói mais um ARQUÉTIPO ao dizer que: “Esse REINO não vem com APARENCIA EXTERIOR”, não era algo que viria “DE FORA”, mas algo implantado “DE DENTRO”, e refletiria “PARA FORA!” (Lucas 17:20-21).

O raciocínio seqüencial dessas narrativas segue no capitulo 18; des-construindo o poder DOMINANTE, da religião e IMPÉRIO ROMANO, na parábola ele amplia e coloca um JUIZ, uma figura romana conhecida também na história da nação judaica e mostra a FORÇA dos FRACOS.

A viúva conseguiu não pelo PODER DE DOMINIO, mas sim por um poder maior, o da HUMILDADE (Lucas 18: 5). Essa é mais uma des-construção do arquétipo instituído no inconsciente coletivo da nação DOMINADA (Israel) e dominante (Roma).

Jesus segue demolindo os paradigmas [2] certamente para mostrar a dimensão do que havia falado anteriormente, sobre o êxito da viúva frente ao Juiz, “LEPROSO E VIÚVA”, eram duas classes de pessoas totalmente rejeitadas no contexto social da época!

Ele prossegue dizendo que o orgulho do PODER manifesta através da oração do FARISEU que revelava arrogância, e a insuficiência do NÃO PODER na oração do publicano revelava a essência da justificação no reino, pois não é o poder para FAZER, esse foi DES-CONSTRUÍDO, mas sim a HUMILDADE foi exaltada. A arrogância sempre foi patente da religião! (Lucas 18:9-14), o publicano [3] é mais uma classe des-classificada, que foi classificada para o reino!

O evangelista Lucas na seqüência narra a atitude dos discípulos em impedir as crianças de ir até Jesus, mas ele diz: “Deixai vir a min as criancinhas, pois das tais é o reino dos céus”! (Lucas 18:16). A atuação da religião farisaica com sua estrutura psicológica de DOMINIO, não conseguia ver nas CRIANÇAS um modelo de força.

Um príncipe pessoa de alta patente na sociedade presencia o acontecimento e não suporta ver Jesus dizer que o reino vem com gratuidade, e pergunta:  “Bom mestre o que farei para herdar a via eterna?” (Lucas 18:18)

“O QUE FAREI PARA HERDAR”? Ora Jesus havia acabado de dizer que o arquétipo que estrutura a mente dele na encarnação não é o PODER PARA FAZER, mas o poder de NÃO FAZER! Ao dizer que a FORÇA do reino tinha nas crianças o seu modelo, e que os adultos tinham na simplicidade delas o protótipo ideal.

“O que se poderia fazer para herdar a vida eterna?” Ora, herança não se conquista, não é uma ação do sujeito, mas algo que ele recebe! Só há uma coisa a fazer: “È não fazer”! Aceitar passivamente a graça de Deus em Cristo!

Jesus estabelece um reino que é antitético à estrutura dominante, nesse, ficariam de fora os “fortes”, “justos” “auto-suficientes”, as “obras” como justificadora do SER, e seriam inclusos, os “humildes”, “insuficientes”, e a “fé”, como base da nova ordem.

A Alteridade [4] em Cristo não só despolariza o poder dominante, como dilui todo espírito de AUTOSUFICIÊNCIA que é o orgulho de toda religião.
____________________________________
Notas
[1] Na psicologia analítica, significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar. C. G. Jung usou o termo para se referir aos modelos inatos que servem de matriz para o desenvolvimento da psique.

[2] Paradigma (do grego parádeigma) literalmente modelo, é a representação de um padrão a ser seguido. É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo cientifico uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas.

[3] Publicano é o nome dado aos coletores de impostos nas províncias do Império Romano.Buckland afirma que havia duas espécies de publicanos: os publicanos gerais que eram responsáveis pela renda do império, frente ao Imperador e os publicanos delegados por estes em cada província.

[4] A palavra alteridade, que possui o prefixo alter do latim possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e dialogar com o outro. A pratica alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais religiosos, científicos, étnicos, etc.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A liberdade da escravidão & a escravidão da liberdade

Na teologia a palavra corrente, traz uma conotação de “segmento de um pensamento Teológico”, ou seja, “corrente”, quando alguém diz que é de corrente, “calvinista”, está dizendo que a sua estrutura teológica é herança da construção teológica do reformador João Calvino, da mesma forma a corrente “Arminiana”, de Jacobus Arminius, Wesleyana de John Wesley, Luterana, de Lutero, e assim por diante.

Não é incomum ouvir a pergunta? De qual corrente você é? A resposta depende da formação teológica de cada um! Corrente é uma palavra que traz uma conotação de “limite de liberdade”, mas será que a corrente tem somente essa definição?

Será que não existe liberdade na escravidão? Até que ponto pode dizer que alguém acorrentado não tem “liberdade”. Se definirmos liberdade como capacidade de fazer o que quer, logo o acorrentado não é livre, mas pode alguém ser livre, quando tem “liberdade”, para fazer e não consegue fazer, visto estar preso por “correntes”, como essa da Teologia?

Não sou contra a Teologia, mas não gosto muito dessa palavra quando se refere à teologia, pois para mim a teologia deve estar “livre das correntes”, pois se for corrente, dificilmente será livre! A não ser que haja liberdade na “corrente”!

A corrente que limita o espaço nos tira a liberdade de ir e vir, mas o que dizer das correntes psico-“lógicas”, emaranhadas num sistema fascinante que produz uma letargia mental, onde uma seqüência de pensamentos organizados coloca a mente dentro de uma forma esquemática, fazendo aquele que crê ter tanta convicção das suas certezas, que não consegue ser “livre”, para pensar de forma diferente, embora o seu cérebro esteja “livre”, na realidade está acorrentado! Embora tenha “liberdade” está preso!

Que dizermos da liberdade, ah! Liberdade, como sonha o homem estar livre da causa e efeito... da lei da gravidade! Esse é o sonho humano de ser divino! Enquanto alguns se amarram com a lógica dos "dogmas", outros se libertam dos "dogmas", mas se amarram na "corrente", de não ter “dogmas”, ficando preso na liberdade de não ser escravo.

A liberdade também acaba sendo uma “corrente”, pois a liberdade do homem é relativa, mesmo sendo “livre”, é “escravo” das leis, inclusive a “lei da liberdade”. Não a lei do "não fazer", que sofre as com-“seqüências”, da “passividade”, que é a in-“capacidade” de “fazer”, vive a lamentar a in-felicidade de não ter a liberdade, para “fazer” as coisas mudarem!

Mas a lei do “poder fazer”, para mudar, também tem as conseqüências, tendo ou não uma “corrente”, estaremos sempre acorrentados, uns presos pela corrente dos dogmas, outros presos pelas correntes das “conseqüências”, do “fazer”, mas “não poder”, ser livre das conseqüências do que faz!

Que o diga os “hereges” da história que lhes foram tirados a “liberdade” de expressão, acorrentados, tornaram-se escravos por ter a inteligência livre. Mas quem realmente teve a liberdade transformada em “escravidão”? Quem foi “acorrentado”? Os “acorrentados” por causa da liberdade da inteligência, ou os que os “acorrentaram”, pelo atrofiamento da inteligência escrava, “acorrentada” na ignorância dos seus pré-“conceitos”.

Quem é livre tem “conceitos”, e a visão desses, está sempre aberta a passar pela re-“visão”, pois a revelação está em andamento! Mas o pré- “Conceito”, é um conceito “canonizado”, que não aceita ser re-“visa”-do, pois não “visa”, re-“visar”, que conhecer, também implica em re-“conhecer”, que a verdadeira “liberdade” é estar debaixo da sub-“missão” e essa é a supra-“missão” daqueles que foram chamados para ser os “escravos-livres” de Deus. [1]

Depois de algum tempo os ex-termina- “dores” de “hereges”, que colocaram fim nas “dores” de alguém que conseguiu ver o invisível, a revelação é visível para quem recebe e escura para quem é mero contemplador!

Descobriram que os “hereges” não eram tão “hereges” assim! A definição de herege, ou não, depende do ponto de “vista” de quem acha que de-“tem” a verdade, mas o tempo descobre que os hereges também têm seu ponto de “vista”, mas a “vista” às vezes da “Ponto”, para quem tem o “poder” de prevalecer, contra quem tem a “verdade”, mas não tem poder, para fazer prevalecer a sua “heresia”!

Da a impressão que a verdade é escorregadia, pois nossas certezas hoje são in-“certezas”, amanhã! Quem pode arrogar que nunca foi corrigido pelo mestre em divindade chamado “Tempo”! As certezas são as convicções que termos num momento, mas no momento, seguinte, só ficamos com a certeza do “equivoco”.

Arminio, o herege de Calvino, Lutero o herege do sistema Romano, Os pietistas os hereges dos luteranos, Wesley o herege do Anglicano, Pentecostal hereges do Tradicional... e assim continua a lista interminável dos hereges! A não ser que soframos as “conseqüências da liberdade”, que assim como as “conseqüências da escravidão”, também tem as suas “conseqüências”!

A diferença é que um sofre as conseqüências do "não poder fazer", porque estão presos as "doutrinas", outro as mesmas conseqüências do não poder fazer, mesmo estando livre das doutrinas. O primeiro sofre as conseqüências do que não pode fazer, por isso continua preso. O outro sofre a conseqüência inversa, do poder fazer, e não fazer.
Viva a liberdade da escravidão... E a escravidão da liberdade, afinal ser escravo é também ser livre!
________________________
Notas
[1] Conferir Romanos 6: 17-23, quando o apóstolo fala que eramos: “escravos do pecado” (δουλοι της αμαρτιας) “douloi tes hamartias”, E, libertados do pecado: “fostes feitos servos da justiça” (εδουλωθητε τη δικαιοσυνη) “edoulothete te dikaiosine”.

A palavra “escravos” (douloi), vem da mesma origem “Servos”, (edoulothete) que a palavra “doulos”, traduz para a nossa lingua tanto para “servo” como para “escravo”, ou seja servo ou escravo tem o mesmo significado no grego do novo testamento.

Continuando em Romanos 6: 19: δουλα τη ακαθαρσια (doula te akatharsia), “escravidão da impureza” em contraste com “servirem a justiça” (δουλα τη δικαιοσυνη) “doula te dikaiosine”. (v 20) “Servos de Deus” (δουλωθεντες δε τω θεω) “doulothentes de to theo”.

O apostolo ao escrever em grego, não fez distinção como na lingua portuguesa entre “servo”, e “escravo”, mas usou a mesma palavra tanto para um como para outro. Os tradutores acharam melhor não usarem a mesma palavra, fazendo distinção entre “servo” e “escravo”, coisa que não foi feito no texto grego pelos escritores do Novo testamento

terça-feira, 20 de abril de 2010

DEISMO, TEISMO & PAN-EM-TEISMO

Há duas idéias filosóficas básicas sobre Deus, a oriental e a ocidental, na concepção oriental sobressai a TRANSCENDÊNCIA (judaica) é totalmente ANTI-IMANENTE, ou seja, no Antigo Testamento não vemos o conceito de Deus “EM”, e sim D’ALÉM, o que fica muito “AQUÉM” do anseio humano de relacionamentos, esse Deus precisa ser mais TRANSPARENTE.

No ocidente Deus é mais IMANENTE (Cristianismo) embora seja embrionária no oriente, (judaísmo), difere por crer que Cristo é o cumprimento das profecias contidas nos escritos proféticos!Essa diferença trás a crença em que Deus veio e voltou para o ALÉM, mas não fica “AQUÉM”, pois na encarnação, o CRISTO pelo ESPIRITO está “EM”.

A teologia do oriente “peca”, porque um Deus totalmente TRANSCENDENTE fica AUSENTE, precisa do IMANENTE para estar PRESENTE e ser COM-DESCE- ENTE, a encarnação oferece essa DESCE-IDA, o que está no alto vem para baixo, se iguala a criatura, mesmo sendo o criador.

O DEISMO e o TEÍSMO mostram um Deus totalmente TRANSCENDENTE, porém AUSENTE, o primeiro sem EM-PATHOS, um relojoeiro, frio que cria e deixa a lógica da maquina ser a “senhora do destino”.

O segundo tem EM- PAT-IA, mas falta lhe SIM-PATIA esse “Deus” não DESCE da sua majestade, não se move da sua posição, a semelhança do DEISMO, o TEÍSMO também oferece um Deus CONTEMPLADOR, porém insensível, suas entranhas ficam imóveis, falta vibração, não tem PAIXÃO, conseqüência disso é a ausência de COM-PAXIÃO.

O TEISMO torna-se pior, menos humano, um Deus que não seja humano não serve para ser honrado, pois é crueldade se relacionar com suas criaturas através de leis, escreve com dedo na pedra, marca com fogo, vem no terremoto, ao ouvir a sua voz o homem treme, até mata, não conhece lagrimas, ele precisa se EN-CARNE-AR! Ai então vai aprender a CHORAR.

O TEÍSMO e o DEISMO têm um Deus que está “ALÉM”, mas sua marca é a DESDÉM, olha de cima para baixo, preserva a sua glória, o Deus que serve para ser honrado, não OLHA DE CIMA, ele desce e OLHA PARA CIMA geme, sente o desamparo da sua criatura, até DEUS já experimentou o que é duvidar de DEUS, quando perguntou: “PORQUE ME DESAMPARASTE? Um Deus que se sente DESAMPARADO é digno de ser ADORADO!

O PAN-EN-TEÍSMO ou KRAUSISMO, diz que a criação está “CONTIDA EM” Deus, mas esse é maior do que sua criatura, difere do PAN-TEÍSMO, que diz : “Deus e o universo coincidem perfeitamente”, ou seja, uma unidade que está tão IMANENTE, que não pode ser DIFERENTE, por isso é IN-DIFERENTE!

O CRISTIANISMO tem sua base no PAN-EN-TEISMO, pois Deus está para “ALÉM”, mas em Cristo desceu “EM” e o homem, pela fé, o CON-TÉM: “Vós sois templo do Espírito de Deus, o reino de Deus está dentro de vós.”

Deus não tem morada fixa, é “PEREGRINO”, vive em tabernáculos móveis que passam pela existência! SPINOZA percebeu isso quando disse: “Tudo não é Deus, mas tudo está em Deus, sendo Deus a base de tudo”.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dogma-latras: adoradores de dogmas!


“Não terás outros deuses além de min”. [1]. Uma tradução mais literal do hebraico poderia ser: “... Não terás outros deuses à parte de min, frente a min, na minha presença”.

Olhando para o contexto onde o povo viveu por 430 anos, uma nação que escravizou os descendentes de Abraão, [2] a nação egípcia descende de Cam, que gerou Miszraim [3] Os Egípcios eram politeístas, e faziam imagens de seres da natureza como representantes das divindades nas quais cria, isso explica o porquê do bezerro de ouro ao enfrentar à ausência de Moisés quando subiu ao monte.

“Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faz-nos deuses que vão adiante de nós; pois, quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe terá sucedido. Disse-lhes Arão: Tirai as argolas de ouro das orelhas de vossas mulheres, vossos filhos e vossas filhas e trazei-mas”. [4]

Não foi sem propósito a advertência sobre fazer imagens de qualquer espécie das coisas que Ele mesmo criou a “imagem”, exerce poder sobre quem a observa, o ser humano tem uma capacidade extrema de fazer “imagens”.

No caso especifico os quatro séculos de sobrevivência da nação que colocava os seus anseios nas imagens que representava a sua “fé”, essa “imagem” distorcida do Deus de Israel, certamente a primeira advertência seria para que não fizessem “imagem” do Deus que está acima de qualquer imagem criada pela imaginação humana.

Mas será que era a imagem em si, que Deus estava proibindo que se fizesse adoração? Poderíamos definir Idolatria na esfera do ser criar imagem do “ser que o criou”, ou qualquer imagem, ainda que não fabricada nos moldes da argila, metal ou quaisquer que seja o material usado para esculpir a divindade.

O problema não estava na essência, na com-posição, mas na “posição”, do homem diante da imagem que ele cria, pois essa passa a ser digna de ser o “seguro” da fé daquele que crê, quando a dimensão da fé é não estar seguro, é a segurança na insegurança do que se não vê [5]

A idolatria não está na “imagem”, pois essa poderá ser “pedagoga da fé”, a imagem pode revelar verdades através da criatividade da mente, que nem sempre mente, quando cria uma visão da revelação do mistério da fé, visto que na audição o próprio Deus convida a sair [6], mas na visão Ele mesmo diz: “olha para o céu e conta as estrelas”[7], a arte é a visão daquele que vê o que outros não conseguem ver, arte é invenção é expressão de fé!

Na história da igreja, a imagem ganha muitas formas, a idolatria tem muitas faces os “dogmas”, substituíram a idolatria dos “santos” esculpidos pelas mãos humanas, criados por Deus a sua imagem e semelhança, o próprio homem transformou a “imagem” de Deus em substituto do próprio Deus.

A re-forma foi importante, pois combateu a forma, esculpida pelo homem no tocante a sua justificação diante de Deus, mas ao justificar que a justificação pela fé diante Deus não exige forma, também deu forma para a mesma justificação, quando estabeleceu os “dogmas” como à “forma”, para o conhecimento de Deus.

Quem pode negar a importância da re-forma, quando destruiu a forma, mas a mesma reforma também cometeu o erro, não de formar os dogmas, mas de os “canonizar”, querer se segurar na “imagem” de uma confissão de fé estática. Isso é confirmado pelos que se jactam de ser adeptos de uma Teologia calvinista, que certamente nem “Calvino”, imaginaria que iriam “canonizar” a doutrina levando o seu nome.

Na “progressão do paganismo”, sim entre aspas, pois quem pode definir o que é pagão, se para o “pagão” suas ações se movem na direção do sagrado! Mas na defesa da glória de Deus, só havia um remédio, não remediar, agir! Os re-“forma” dores, in-con-“forma”-dos, arrumaram forma de dar o antídoto, convidam o grego "pagão?" Aristóteles, para usar a lógica e dar forma a um Deus multi-forme. Agora ninguém mais colocaria imagem “diante D’Ele”.

No entanto com o passar dos tempos, chegando aos nossos dias, percebemos que a imagem foi substituída pelos “dogmas”, não que os re-forma-dores tinham essa intenção, mas ao querer usar os “dogmas”, para segurar a fé, sem perceber substituiu Deus pelos “dogmas”, a fé nos Deus vivo, pela confissão de Fé que descreve o Deus vivo, agora deveria ter as formas do sistema idealizado da “Sofia”. [8]

Foi posta a res-posta, anti-idolatria, onde se substitui a idolatria do homem que se colocava no lugar de Deus, o “Ser”. Mas corria o risco da substituição, outro ocupar o lugar, o “Saber”.

Não seria a figura humana esculpida, o objeto que ocuparia o lugar: “Não terás outros deuses além de min”. foi convidado Aristóteles "pagão?" trouxe consigo a amiga lógica, a  segurança da “Sofia”, o saber que enganou quem não “sabia”, que há muitas formas de idolatria. A imagem esculpida foi substituída pela imagem do “saber”, foi trocado um ídolo por outro, mudou-se a forma, permanece a essência!

Essa foi denominada “A era dos dogmas”, pois para fugir da idolatria das “indulgências”, que divinizava o homem e destronava Deus, descendo-o a um mero coadjuvante expectador passivo das vontades humanas, necessário era colocar Deus de volta no seu trono, mas a “Sofia”, não sabia que não poderia colocar um Deus tão transcendente, que não fosse com-desce-ente, pois o Deus en-carne, desceu até o homem nas suas limitações.

Os “dogmas”, que foram feitos para proteger o homem das “heresias das indulgências” não conseguiu o proteger das “indulgências das doutrinas”, para ser perdoado dos pecados precisava pagar pelo pecado cometido, da mesma forma havia um preço a ser pago, para quem cometesse o pecado de não aceitar a “proteção”, dos dogmas.

Ouve uma substituição das “indulgências do pecado”, pelas “indulgências dos dogmas”, de qualquer forma o homem pagaria pela sua transgressão, ou pela des-obediência a “lei” do sumo sacerdote, ou pela des-obediência a “lei dos dogmas”, uma coisa ambos concordaram, toda lei transgredida exige punição! O homem pagava por si mesmo ao transgredir o padrão de moral, estabelecido pela “lei”, dos homens, o que produziu uma re-volta, onde a volta a “Sola Scriptura”, foi usada para organizar idéias sobre Deus.

O remédio teve efeito colateral, pois ao colocar em ordem o “descrever Deus”, foi necessário limitá-lo! Os mistérios da revelação seriam sepultados pela premissa: “Deus é soberano”.

Só restou a pré-destinação como ato de um Deus Todo poderoso, que resolveu “eleger” alguns e simplesmente ignorar outros, afinal é todo poderoso pode escolher o que bem quiser, ainda que se contradiga ao dizer: “A minha alma não se alegra com a morte do ímpio”![9]

A salvação era privatizada, e tinha na infalibilidade da igreja a segurança do homem, mas com a re-forma, houve uma substituição, pois agora “a infalibilidade dos dogmas”, era a segurança do homem, para a mesma salvação! O homem só era livre para concordar que não era livre, pois discordar o levaria a experimentar a realidade da prisão!

Neustã [10] nunca foi digna de ser adorada, ela foi apenas uma “imagem”, que serviu de “pedagoga” da revelação, apontando para aquele que a sua semelhança seria pendurado, e nele não há imagem estática, mas uma cura constante, dando o direito de o homem ser curado, dos males de alimentar-se da arvore da ciência do bem e do mal, sendo atraído, ao olhar para ELE. [11]

A serpente de metal, ainda está presente, não por movimento próprio, pois ela não tem vida, mas está viva na mente de quem ouviu [12] falar que só para ela olhar, o milagre acontecia.

Só resta agora despedaçar qualquer imagem, seja de metal, [13] seja da “Sofia dos dogmas”, a revelação progrediu, Deus é multiforme, presente em diversas formas, e não há imagem que possa superar aquela que corporificou , se fez carne vivendo entre nós. [14]
___________________________
NOTAS
[1] Êxodo 20:1
[2] Cf: Gênesis 15:16. O tempo que Israel ficou no Egito foi de 430 anos, embora 30 anos não fosse considerado escravidão visto que esse foi o período que Jose foi governador do Egito. Cf: At 7:18-19.
[3] Gênesis 10:6.                    
[4] Êxodo 32:1-2.                   
[5] Hebreus 11:1.
[6] Gênesis 15:4.                     
[7] Idem, vs (5).
[8] Philosofia: palavra de etimologia grega que significa sabedoria, daí o termo significar “philo”, amigo, amante da Sabedoria.
[9] Ezequiel 33:11.                
[10] Números 21:8-9.
[11] João 3: 14-15 Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã.
[12] Números 21:8-9 "E disse o SENHOR a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia".
[13] Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera; porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã.
[14] João 1:14 : E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

sábado, 10 de abril de 2010

NEO-ATEISMO: “O paradoxo da transcendência na imanência”

André Comte-Sponville, finalmente um “Ateu” coerente que na realidade não é tão ateu assim! È ateu por negar a transcendência, mas faz diferenciação entre as palavras RELIGIÃO & ESPIRITUALIDADE admitindo a segunda sem necessariamente precisar da primeira, ou seja, a existência de ESPIRITUALIDE sem RELIGIÃO, essa é a proposta do que denomino NÉO-ATEISMO!

Essa separação na definição entre ESPIRITUALIDADE e RELIGIÃO é no mínimo PARADOXAL (não contraditória!), pois a palavra ESPIRITUALIDADE, já aponta para uma dimensão de TRANSCENDÊNCIA o que a meu ver é uma forma de RELIGIÃO, mas que não vai para “ALÉM DE” tendo “OUTRO” o diferente, como objeto fora de si, mas a “OUTRA” a IMANENCIA, porém não se pode permanecer na IMANÊNCIA “estar em”, quando se usa a META-FÍSICA, (estar além), pois essa em si é TRANSCENDÊNCIA!

A antropologia do SPONVILLE é EVOLUCIONISTA, mas nessa definição ele acaba transcendendo:

“O que é espiritualidade? É a vida do espírito, especialmente em sua relação com o infinito, com a eternidade, com o absoluto.”

Essa vida do espírito está relacionando como o que TRANSCENDE que é o “infinito, eternidade e absoluto”, de qualquer forma o SPONVILLE admite a dimensão TRANSCENDENTE do ser humano.

Já os ATEUS ORTODOXOS, em oposição a SPONVILLE que seria o NEO-ORTODOXO do ateísmo, não anula a TRANSCENDÊNCIA, pois os ORTODOXOS fazem oposição até mesmo à antropologia EVOLUCIONISTA, que admitem a TRANSCENDENCIA do homem em relação à natureza, com a tese:

“Houve um momento em que o homem dá um salto e esse foi justamente o momento quem que ele TRANSCENDE”.

Não se sabe qual o momento, tão pouco que experiência foi essa, alguns dizem que foi na percepção da sua FINITUDE, o antropólogo CLAUDE LÉVIS STRAUSS com pressupostos da psicanálise FREUDIANA diz: “Surgiu à primeira REGRA OU NORMA”.

FREUD e STRAUSS defendem a tese de que esse momento foi a PROIBIÇÃO DO INCESTO!”

SPONVILLE não CRÊ numa transcendência para um “ALÉM DE”, mas numa transcendência na relação “A UM” usa três termos abstratos para falar da espiritualidade: “INFINITO, ETERNIDADE, e o ABSOLUTO”

Essas são dimensões da religião, o “ALÉM DE”, ainda que não se acredite numa PESSOALIDADE, ou IMPESSOALIDADE, numa causa primária da existência, mas crê-se na dimensão META-FISICA!

A filosofia atéia de SPONVILLE no tocante a ESPIRITUALIDADE já demonstra uma RELIGIÃO, embora admita a ausência de RELIGIOSIDADE, fica difícil de separar uma da outra, pois se pode haver ESPIRITUALIDADE sem RELIGIOSIDADE, não pode haver religiosidade sem ESPIRITUALIDADE seja DOGMÁTICA ou A-DOGMÁTICA, nesse caso, acredito que o SPONVILLE inconscientemente admite que ao definir a possibilidade de uma “VIDA NO ESPIRITO”, fundamenta de que a ESPIRITUALIDADE já é uma RELIGIÃO!

Os termos usado por ele, não carrega uma conotação de PESSOALIDADE ou PERSONALIDADE, como nas religiões TEISTAS, que no relacionamento com o ABSOLUTO usam PRÓ-NOME, que é uma PRÓ-jeção da di-mensão HORIZONTAL, “homem” para a VERTICAL “Deus”, embora não seja assim que crêem os CRISTÃOS ORTODOXOS, pois faz uma pseudo-reflexão na ordem inversa, uma epistemologia na VERTICAL "Deus" para uma HORIZONTAL "homem"!Como se isso fosse possível!

A definição do ABSOLUTO judaico-cristão tem sua gênese não na premissa de um ABSOLUTO “Deus” que CRIA o homem a sua IMAGEM, (embora essa seja a teoria) mas da sua IMAGEM o homem CRIA a imagem do ABSOLUTO “Deus”, isso em reflexo do olhar para si vê a sua imagem e a nomina “Deus”, como efeito do reflexo desse olhar no espelho! Isso explica Deus ter tantos rostos diferentes!

As religiões IMANENTES como o HINDUISMO tem no BRÂMAN o princípio divino, não-personalizado, e neutro, ENERGIA, são diversos adjetivos, FORÇA CÓSMICA, o TAO: “caminho no espaço-tempo - a ordem na qual as coisas acontecem”, no BUDISMO o SAMSARA compreende os três mundos superiores: “Deva, semideuses e seres humanos”.

Mesmo uma religião sem Deus admite a TRANSCENDENCIA, a percepção de tempo, espaço e continuidade da vida tira o homem da total IMANÊNCIA eleva-o a TRANSCENDENCIA!

Se por um lado no ateísmo de SPONVILLE, não há pessoalidade de relação do homem com o ABSOLUTO, ele sai da premissa filosófica grega onde a causalidade é a RAZÃO o motor IMÓVEL que MOVE, também rejeita o “SER QUE É”, o imutável de PARMÊNIDES, que é a expressão judaica do SER com PERSONALIDADE do judaísmo!

SPONVILLE em busca de uma ESPIRITUALIDADE crê na impessoalidade, mas não consegue escapar do que se propõe fugir a “RELIGIOSIDADE”, pois não há outra forma de definir ESPIRITUALIDADE, o termo em si já é RELIGIOSIDADE, por aceitar outra dimensão de existência mesmo na IMANÊNCIA, não nas “fugas” do niilismo negativo das religiões tradicionais (paraíso) nem no niilismo reativo da religião ciência (futuro), mas uma TRANSCENDÊNCIA na própria IMANÊNCIA, o que é “PARADOXO”, pois toda transcendência é movimento para “ALÉM DE” sendo assim PARADOXO é verdade da fé!

SPONVILLE: “bem vindo ao clube”, da religião!
________________________________
NOTA
Esse artigo foi escrito tendo como base o excelente texto postado pelo meu amigo Eduardo Medeiros.
Recomendo que para entender melhor esse texto leia antes o artigo no seu blog, com o tema: Espiritualidade ateísta.
http://saladopensamento.blogspot.com/2010/04/espiritualidade-ateista.html

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Mistério sem roupa!

A teologia judaica tem na sua crença um fator interessante o NOME de DEUS, que carrega um mistério tão profundo e sacro que sequer deve ser pronunciado.


A Palavra SER composta do tetragrama da língua hebraica, alguns interpretes dizem que poderia ser traduzida por EU SEREI O QUE SEREI ou EU SEREI O QUE MOSTRAREI SER


י    Yodh ou Yud

ה   He ou Hêi

ו   Waw ou Vav

ה   He ou Hei


O Judaísmo sacraliza o nome dado ao mistério, esse é temido, pois tem poder de vida e morte sobre o homem, há reverência em pronunciá-lo, sendo o oposto das religiões onde conhecer o nome dá poder ao homem sobre a divindade, pois não é somente uma forma CONHECER, mas de DOMINAR, através do conhecimento que se tem, pode-se manipular a seu favor, invocando-o através do nome, colocando-a divindade a seu serviço!


Daí entende-se Jacó, que no encontro com a divindade pergunta: “Qual o seu nome”, ouviu a resposta: “Para que perguntas pelo meu nome? (Genesis 32: 29). O mistério não quis se revelar abençoou, não deu espaço para que o sagrado fosse profanado, a divindade é anseio inconsciente do homem, daí, a benção de “Deus”, ser antitética ao comércio dos “deuses”, esses ao serem nomeados passavam a subemeter-se ao que o nomeia!


O nome de DEUS ficou desconhecido, em razão D’Ele ser à sombra do cristo que haveria de vir, ele tem “nomes”, muito mais que “nome”, não é singular, mas plural, não é o Deus dos “orto-doxos”, nem dos “neo-ortodoxos”, e sim dos “para-doxos”, não é uma sub-tração, nem di-visão da divindade, por isso não importa se é UNICIDADE ou TRIN-DADE, se três em um ou um em três, mas muliplicidade na unidade que se revela na diversidade!


Quando o homem dá NOME ao mistério chamando-o de DEUS, tenta decodificá-lo, um pouco do mistério se esvai no nome, pois a palavra “Deus” já é interpretação. Os anti-religiosos que não aceitam DEUS no nome admitem uma espiritualidade no homem, isto é: “DEUS” sem nome, esses o reconhece e sem perceber lhes dá um nome, chamando o de MISTÉRIO!


Essa palavra é a que mais se aproxima do significado de DEUS, pois significa tanto, que não tem definição na explicação do significado, isso porque ao nominar o mistério chamando o de DEUS, já o está limitando, quem admite que o mistério é infinito, quando da nome o traz a dimensão do finito!


O melhor possível seria não lhe dar nome! Que nome se dá ao que não se compreende? “MISTÉRIO”, mas ao nominá-lo estou tirando o que lhe é peculiar, o ABSURDO!


A revelação tem seu fundamento no MITO, que é projeção, anseio e verdade que está além, fora do sujeito, esse que caminha na interpretação, alternando as vestes novas e velhas, ora vestindo, ora se despindo, ora tecendo...


O homem vai dando NOME, tentando decodificar o in-decodificavel, fazê-lo deixar de ser MISTÉRIO, dominá-lo, por isso veste-o conforme a sua roupa! E tira a sua roupa conforme a sua nudez! Não entender DEUS é o que mais lhe fascina... Pois quanto mais longe ele estiver do seu entendimento mais e mais anseia pela sua proximidade!


CRISTO, roupa do mistério que tirou a roupa, ficou nu, na sua nudez veste o homem de sentido, Ele veste a roupa do nu, e aceita que o vistam com suas roupas, o mito que o homem i-mita, MISTÉIRO que se despe para vestir...