As definições teológicas que fazemos a respeito da pessoa de Deus são realmente conceitos veterotestamentário, Neotestamentário, ou uma mistura de tudo, não será uma definição mais perto do deus Zeus, que o Yavé dos hebreus? E muito menos ainda do Jesus encarnado? Essa teologia é firmada numa revelação dialética, ou um processo estático?
Enquanto Zeus fica numa redoma intocável, observando o mundo de forma indiferente, o Deus Yavé, sempre se revelou numa esfera existencial, relacional, não numa forma de silogismo filosófico, onde a transcendência deixava o “deus” totalmente ausente da vida humana, onde o homem vivia apavorado, sempre buscando aplacar a ira do seu “deus”, diga-se de passagem, que esse Deus grego sempre esteve irado!
Se voltarmos às origens da teologia determinista, veremos que os judeus já tinham esse pensamento exclusivista de “Eleição incondicional”, ou “Predestinação”, no entanto vemos o Deus Yavé sempre os exortando, ao arrependimento, diga-se que não foram poucos os cativeiros que o povo passou.
Basta ver que mesmo em cativeiro o povo achava que Deus os tinha abandonado, essa era a consciência que eles tinham, pois responsabilizavam Deus por suas decisões, como se suas decisões fossem responsabilidade de Deus. Ignorando que esse Deus que eles achavam que era responsável por seus infortúnios, sempre mandava profetas para adverti-los de seus maus caminhos [1]
O apóstolo Paulo faz uma severa advertência para com a segurança excessiva de Israel, dizendo que os “ramos” foram cortados quanto mais seriam os que foram “enxertados”, também terão o mesmo destino se não perseverarem. [2]
Vemos a mesma advertência de Jesus [3], embora seja inegável a contribuição de Agostinho para a teologia, não podemos negar que o conceito grego determinou sua definição sobre a natureza de Deus, foi a helenização do contexto de sua época que sem dúvida moldou a sua mentalidade de forma que Deus sempre foi definido como alguém que sempre está na esfera da meta-física!
Será que o deus da filosofia é o Deus que se revelou a Abraão, Moisés, e os profetas, que sempre mandava uma mensagem dentro de um arcabouço histórico? Colocando nomes da sua pessoa de acordo com a circunstância do momento, pois se o homem estava enfermo, logo ele se revelava como o Deus que cura numa guerra ele se identificava como o Deus dos exércitos, tanto de forma coletiva quanto de forma individual.
Ele se revelava de forma relacional, alcançando seu ápice na encarnação “o logos transcendente, agora torna imanente”, pois esse logos que era atemporal decidiu agora ter um início de existência, sujeitando-se às leis que ele mesmo criou, subjugando-se aos limites que com certeza o “deus grego”, não se submeteria!
O Deus transcendente dos gregos era intocável, inacessível, o “Logos”, que eles conheciam imutável, não tinha uma existência relacional, dialética, não interagia com a criatura.
Se partirmos do pressuposto vetero-testamentário que a revelação de Deus é progressiva e obteve seu auge no filho [4]. Então devemos rever nossos conceitos de que uma premissa verdadeira sobre Deus deve ser esgotada com afirmações e possibilidades de um Deus que a própria reforma defende ser “Onipotente”. Os conceitos teológicos formais são tentativas de assegurar as premissas ocultas por trás do conteúdo bíblico [5]
Deus não é apenas metafísico, “anacrônico”, mas um Deus que “age”, decidiu voluntariamente ser temporal, experimentando uma curta existência terrena, como é comum aos seres humanos. Ele “interage” na história, quando Deus se revelou a Moisés ele não elaborou proposições acerca de seu caráter, mas mostrou o seu poder com “ação”.
Ou seja, ele não disse que era onipotente, mas agiu na história; manifestou-se ao próprio Moisés a quem Ele mesmo se revelou [6]. O que nos salva não são verdades formuladas em frases, mas Deus mesmo se dá como salvação.
A Epistemologia helenista vê a verdade como algo estático, como um pensamento, o “conhecer” independe do “fazer”, dessa forma o mundo não pode ser transformado pela participação humana, pois ele foi criado por Deus que decretou tudo (Até mesmo o mal?!).
Contempla tudo ocorrendo como planejou conseqüentemente as orações são subjetivas, e porque agir, se tudo vai acontecer independente da ação humana? Na cosmo-visão grega de Deus, a “teoria” é o que importa, a “práxis” é somente um efeito, da causa primária que é Deus.
Essa epistemologia é contraditória a teologia cristã, pois a verdade não é somente “teórica”, tampouco “abstrata”, mas sim “histórica”, a verdade “Veio" [7] e somos instruídos a praticá-la [8]. Os religiosos dos tempos de Jesus conheciam a lei e suas ordenanças, no entanto Jesus os advertiu que o conhecimento da verdade incluía uma atitude prática [9]. “Na Bíblia, porém, há um conceito de verdade diferente e fundamental: A verdade é o que acontece, aquilo que Deus faz [10]”.Não é de se estranhar que Marx chamou o cristianismo que ficava alienado dos eventos históricos de “Ópio do povo”, do ponto de vista dicotômico em que os reformadores viam a matéria, onde o “Espírito” era bom e a “Matéria”, era impura, (diga-se de passagem, que esse também era o conceito de origem gnóstica oriunda dos gregos, visto que na teologia reformada o pecado é herança determinada [11], é lógico que a igreja não deveria se envolver com obras de cunho social (por ex: como política), visto que a Igreja deveria viver uma espécie de “Ultra-mundanismo”.
O alvo era somente manter o espírito puro, o que fez com que a Igreja ganhasse muitos antagônicos à sua teologia. (Os mosteiros foi o efeito de uma teologia Utópica de ultra-mundanismo). C. René Padilla faz uma observação sobre esse pensamento:
“A salvação futura da alma, na qual o sentido da vida temporal se esgotava numa preparação para o “ultramundo”, a história é assimilada por uma escatologia futurista e a religião se converte num meio de escape da realidade presente. O resultado é o total desconhecimento dos problemas sociais, em nome da “superação do mundo”.[12]
Esse conceito de “conhecer” é antitético ao conceito vetero-testamentário, haja vista que “conhecer”, para o judeu não é pensar de forma abstrata e filosófica, mas a uma ocorrência pessoal, como por ex; expressa o termo “Yada”, usado como forma de conhecimento numa relação conjugal. [13]
“O conhecimento no AT, não fica na esfera da meta-física, mas é algo recíproco, Deus se dá a conhecer revelando ao homem a sua vontade e reagindo quando este não corresponde com as suas expectativas”. [14] Rudolf Bultman fez a seguinte observação quanto à epistemologia do A T:
“O conceito do conhecimento no AT, não é determinado pelo pensamento de que a realidade daquilo que é conhecido é mais puramente percebida se o relacionamento, pessoal entre aquele que conhece e o objeto do conhecimento é eliminados, e o conhecimento reduzido a um olhar à distância. O oposto é verdadeiro; o conhecimento ocorre se o significado e a afirmação do objeto do conhecimento são percebidos e efetivados" [15]
Essa definição de Bultman está de acordo com a teologia Bíblica, pois a salvação não consiste em acreditar que é eleito, calando sua “segurança” numa série de proposições estáticas, mas na firme convicção de que o Deus que não exclui a filosofia como um meio de revelação, vai além da lógica de qualquer premissa por mais verdadeira que seja.
Se Deus é tão poderoso como acreditamos que Ele é, então temos que conviver com paradoxos que a nossa mente não conseguira conciliar.
“A fé em seu sentido primário consiste na adesão total ao Deus vivo e não simplesmente na aceitação de um credo de proposições, no depósito da fé, estão contidas as verdades necessárias a nossa salvação, a teologia possui uma função de explicitação das verdades deste deposito sagrado procurando o novo entre os vários mistérios e sua articulação com a razão humana”. [16]
A Teologia deve ser dialética e não estática, universalizar um dogma pode levar à paralisia denominacional, onde o “orgulho”, de se denominar “ortodoxo”, muitas vezes faz com que Deus levante outros para dar continuidade onde o “ufanismo”. Estagnou!
Somente Deus pode falar D’Ele mesmo, e dizer que tem a “patente” da Teologia, pois sem dúvida ele tem a verdade absoluta daquilo que fala; o que nós falamos D’Ele são “verdades”, (mas não absolutas no sentido de esgotar todo o conhecimento daquilo que falamos!), pois poderão tornar-se até contraditórias se não olharmos essas “verdades” com outras verdades que são até mesmo paradoxais no falar de Deus.
Deus é o Deus, que está “ativo na história”, realizando conjuntamente com o homem a restauração de todas as coisas.
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Notas
[1] Jeremias 17:7-10
[2] Romanos 11:11-24
[3] João 15:1-6
[4] Hebreus 1:1-3
[5] Bruner: 1984 p.154
[6] Êxodo 4:1-7[7] João 1.17 Veja que o texto diz que a lei foi dada por Moisés, isso não que dizer que não havia verdade na lei, mas sem a graça de Jesus essa verdade não poderia ser experimentada no âmago da experiência prática.
[8] A verdade como teoria, não foi excluída por Jesus, no entanto, Ele mostrou que a verdade pode também ser conhecida quando alguém praticar os seus mandamentos, ou seja, as práticas dos seus mandamentos é uma forma de se “Conhecer a verdade”. Cf João 3.21.
[9] João 8.34
[10] Shuarz, op.cit. Bruner. p.59.
[11] Creio que houve uma perda da retidão original, uma inclinação natural para o egoísmo, a satisfação própria, no entanto, não creio que esse pecado depravou o homem totalmente, como ensinava Agostinho, e em continuidade da sua teologia a reforma aderiu a essa concepção. Embora compreenda a que os reformadores quiseram defender o sinergismo na salvação no contexto da Igreja Ocidental.
[12] Padilla: 1992.p.33
[13] Gênesis 4:1
[14] Gênesis 6:6, 1 Samuel 15:11, Salmos 50:16-21, Amós 7:3
[15] Bultman: 1953.p.697
[16] Boff: 1981.pp. 80-81




