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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Jesus nos lábios... Mamom no coração!


A teologia sempre traz pré-supostos inconscientes por trás de muitas teorias afirmada ao longo da história, uma dessas é a afirmação “bênçãos materiais” x “bênçãos espirituais”, mostram uma hermenêutica falha dentro do contexto da vida de Jesus.

Jesus advertiu os discípulos sobre essa dimensão de se relacionar com os desejos, não dividiu benção em duas dimensões "Materiais x Espirituais", mas falou do coração como fator legitimador para determinar o curso do coração humano.


Como é que se define uma benção espiritual ou material? Isso não existe, essa dicotomia é a razão do flagelo do cristianismo atual, porque ao fragmentar “material x espiritual”, o cristianismo se iguala a qualquer outra filosofia religiosa.

È daí que surgem os méritos como justificativa para ser bem sucedido, tudo isso se originou no conceito grego agostiniano, onde se dividia a vida natural e a noumenal, ou seja, a vida dos sentidos em oposição à matéria, sendo que a matéria era oposição ao mundo ideal, não físico, por isso as bênçãos que se deve almejar é a da “alma”, não física, pois a matéria essa está em oposição ao espiritual! (Matéria x Espírito).

A minha tese é: “O espiritual não está na dimensão do material nem do não material”, mas sim nos “sentimentos” que transformam o material em espiritual, ou seja, a natureza do objeto não tem significado em sí, mas o significado vem dos sentimentos de quem o possui em relação ao objeto de posse!

Jesus disse:
“Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam, porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração, a candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. não podeis servir a deus e a mamom”. (Mateus 6.19-24)

A ortodoxia cristã interpretou esse texto que o tesouro no céu onde a traça e a ferrugem não corroem e os ladrões não roubam (v20), como sendo os exercícios espirituais, tais como: “Oração, jejum, Louvor, adoração etc....

Na sequência Jesus fala do coração como vitima do tesouro, do domínio próprio, e dos cuidados com o desejo exagerado de posse (v21), e culmina se antecipando a psicologia falando da somatização como efeito dos desejos, atingindo o corpo, o que era estranho para a teologia da época, e ainda hoje para alguns que estão descontextualizados...

Jesus continua falando sobre os dois senhores em constante conflito, usa metáforas antitéticas como “luz x trevas”, “olhos bons e maus”, “Deus e mamom”.

Não quero entrar na dimensão psicológica do texto, mas ele está dando um show de conhecimento  da psique humana, antes da psicologia profunda, sobre as instancias antagônicas (ego x superego), que chama de “dois senhores”.

Jesus conclui mostrando que na realidade não existe “material ou espiritual”, e sim que os sentimentos iriam determinar a espiritualidade. Para ele as bênçãos espirituais são aquelas que nos dá sabedoria em “ADMINISTRAR OS BENS SEM DEIXAR CORAÇÃO SEJA DOMINADO POR ELES”.

Quem faz isso “ajunta tesouro nos céus”, pois ao invés de ficar ajudando os irmãos em “oração e jejum”, rogando para Deus abençoa-lo, vai ao banco tira um pouco do “tesouro que está ajuntando” e ajuda com as bênçãos que tem adquirido, mas isso só será possível se sua confiança não estiver no tesouro que está no “Banco da terra”, pois o banco do céu é investir naquele que necessita!

Jesus prossegue:
“Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário?” (Mateus 6.24).

Qualquer pregação que leve a pessoa a “ansiedade”, quanto a sua subsistência, é anticristã, seja “bênçãos espirituais” (que não acredito) ou das “bênçãos materiais” (que também não acredito). Todo esse discurso são geradores de neurose em busca de segurança, o que contraria justamente a “fé”, que é a segurança na própria insegurança, ou seja, uma certeza que habita o coração de quem crê mesmo que não encontre razão para essa crença!

A única benção que acredito existir é aquela que não tira a minha paz, nem a sua conquista, tão pouco a sua ausência, na minha percepção o material e o espiritual se fundem numa só dimensão.

O material é espiritualizado e deixa de ser “material”, quando os meus sentimentos são de dependência para com esse objeto, estando ele em minha posse ou no meu desejo.

O sagrado só existe na dimensão do coração de quem crê, por isso para mim não existem “bênçãos materiais” ou “bênçãos espirituais’.

Deus e mamom tornam-se Senhores no coração de quem lhe entregar os seus desejos, seja o objeto de natureza física (material) ou abstrato (não material), por isso Jesus adverte: “os olhos são as lâmpadas do corpo”, são através deles que nossos desejos se intensificação e vão determinar em qual esfera viveremos a nossa vida, quem a dominará.


Ter tesouro no céu, não significa receber recompensa em outra vida, mas viver aqui uma vida superior, não sendo escravo de nada que venha possuir, afinal não são poucos os que pensam que possuem tesouros, quando na realidade são os tesouros que o possui!


Jesus coloca em questão a grande resposta que daremos a nossa existência: 


“Seremos Senhores das nossas conquistas ou escravos delas...”

terça-feira, 29 de junho de 2010

No que estou crendo...

Minha confissão de fé tem sua base no Cristo ressurreto do Evangelho, mas a minha interpretação do Evangelho de Cristo, sofre alterações, pois num universo em movimento não posso me dar o luxo de ficar estagnado.

O meu credo expressa não uma filosofia, mas a minha dialética com a vida, a partir desses “pré”-supostos, esse credo está em aberto, passível de re-interpretação. Istó é, quando a práxis da vida, for confrontada com as contingências, faço ré-visão, dou "ré", e tento ver o que deixei de ver, pois é isso na minha existência que me faz decifrar os mistérios que são revelados nas ambivalências da vida! Não sou mais teó-logo, mas teó-fago, meu discurso não tem mais a pré-missa na lógica do Logos, mas na i-lógica dos dis-sabores da vida! ...Sendo assim quero deixar registrado algumas bases da minha fé.

1 – Creio que a “verdade” é que toda a “verdade” é cristo, somente cristo tem o absoluto da verdade, no demais o único absoluto é o relativo.

2 – Creio que a todo ponto de vista é à vista de um ponto, nos sempre vemos de um ponto, somente Deus tem todos os pontos de vista e tem a vista de todos os pontos.

3 – Creio que a nenhuma teologia pode responder as questões de fé, e se apresentar como resposta aos paradoxos da vida.

4 – Creio que a própria palavra “teologia”, já é um paradoxo, pois não se estuda Deus, ele não é um objeto estático que se observa e se descreve, Deus se experimenta, e quem o experimenta não consegue descrever.

5- Creio que a palavra “Teólogo” é um termo que descreve aquele que estuda Deus, mas visto que Deus não se estuda, mas se experimenta, prefiro então o termo “Teofago”, por isso Jesus disse: “aquele que comer da minha carne e beber do meu sangue”.

6. Creio que se tivesse mais “Teó-fago”, do que “Teó-logo”, teríamos menos discurso, e mais bondade, pois quem discursa sobre Deus, tem argumento até para genocídio, encontra razão para matar, mas quem experimenta Deus compreende que a razão se fez carne e preferiu morrer!

7 – Creio que o amor de Deus rege o universo e não o poder, pois o amor relativiza o poder, e admite ser contestado, o poder se impõe. Deus admite abrir mão do poder de impor, aceitando o homem se opor, a onipotência de Deus está em que ele pode não poder!

8 – Creio que a vida é o bem maior que temos, devemos reciclar tudo em nossa existência e descartar o que não tiver conexão com a vida, o verbo se fez carne e não discurso, por isso a teologia piedosa e verdadeira tem como lente “cristo em carne”, e não “cristo em discurso”.

9 – Creio que a as pessoas estão acima das instituições, por isso toda instituição existe em função das pessoas e não o inverso, quando inverte-se esse principio, a confissão de fé tiraniza torna-se exploradora e opressora, sendo meio de destruição daquilo que se propõe re-construir: "Aimagem de Deus no homem".

10- Creio que a noticia alvissareira do evangelho é que “Deus se tornou carne”, Ele não apresentou teses do de seu poder com verdades eternas, mas simplesmente enfrentou na carne os paradoxos da vida.

11 - Creio que Deus não se busca, pois ele não está “Lá” onde preciso me esforçar para encontrá-lo, embora Ele seja transcendente, “Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de tudo”, Ele é transparente “por tudo”, também é imanente “e em tudo”. (Ef 4:6).Sendo assim todos esforços para “buscar Deus” é desnecessário, pois ele está em tudo, embora não seja tudo!

12 – Creio que em Cristo a teologia tem sua gênese “de baixo para cima”, e não de “cima para baixo”, afinal ele desceu, para depois subir, quem deseja subir, deve andar na poeira das suas sandálias, não se encontra Deus no “Espírito”, pois Deus se encontrou com o homem “em-carne”.

13 – Creio que a adoração deve começar na horizontal, e não na vertical, pois a recomendação de Cristo é que ao ofertar a Deus “vertical”, e lembrar-se que teu irmão tem algo contra ti “horizontal”, deixa a tua oferta e vai reconciliar com o teu irmão. Ou seja, o caminho para a dimensão vertical (Deus) tem sua genética na horizontal (homem).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Hierarquia ou Hierodoulia?

Quem criou “hierarquia na igreja?” O modelo de relacionamento perfeito na Bíblia é a Trindade e entre nesse relacionamento não tem hierarquia, onde está a superioridade do Pai para o filho, ou do filho para Espírito Santo?

A palavra “Hierarquia” o “hieros”, sagrado + arché (comando, autoridade), já exprime uma filosofia de domínio, poder, que normalmente leva a opressão dos que não tem nenhum poder!

Já hierodoulia, também tem o “hieros”, o sagrado, mas “doulos” = servo, o sagrado está no servir, e não no poder, visto que o poder que é a essência do reino é despir de todo poder em prol de servir o outro!

O relacionamento descrito por Jesus entre Ele e o Pai em João 17: “Glorifica a teu filho para que ele glorifique a ti (...) assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne a fim de que ele conceda a vida eterna a todos que lhe deste. (...) Eu glorifiquei a ti e agora glorifica-me (...) com a glória que tive junto de ti, antes que houvesse mundo” [1]. A fim de que todos sejam um; como és tu, o pai, em min e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. (...) para que sejam um com nós o somos [2].

Interessante que na dimensão humana de relacionamentos o pai está no topo da hierarquia, mas na divindade, a soma de duas unidades é UM, e ainda mais, ele deseja que essa equação seja uniforme em relação à Igreja, só lembrando que ele estava dizendo isso para os discipulos, que viria a ser a “liderança”, que ele estava inciando!

Não digo que deve se excluir a “hierarquia”, no sentido de ninguém liderar, mas que essa é mais uma função, daqueles que sendo aperfeiçoados, ao mesmo tempo recebe a tarefa de ajudar outros a se aperfeiçoarem através dos dons concedidos por aquele que é o cabeça de todo o corpo.

Aqueles que ao exercerem uma função no corpo, não estão acima, não deixam de ser corpo [3]. A “hierarquia”, não deve existir no sentido de “poder para mandar”, mas poder para fazer antes, aquilo que deseja que outros façam!
Quando Jesus se autodenominou o pastor que da a vida pelas ovelhas [4], ele realmente fez aquilo ao qual falou, por isso tinha autoridade para estar no topo da “hierarquia”, mas quando com os discípulos pegou a toalha e lavou-lhes os pés, [5] mostrou que o poder da hierarquia está em não ter poder, pois “poder”, não é um poder de “oprimir os subordinados”, mas um poder de “se subordinar” deixando a prerrogativa de ter poder.

Se houver um líder com essas atitudes, ele não precisará poder para exercer uma hierarquia, pois todos o reconhecerão como alguém que está “acima” dos outros, justamente por se “colocar abaixo”, nesse caso seja bem vindo o “hieros” = (sagrado) + “arché” = (comando, autoridade), pois será autoridade sagrada, pois nesse reino sacro, quem quiser ter autoridade, terá que se despir de toda a força, e se vestir de humildade, os bem aventurados não são os que não tem poder para se impor, mas o que tem o poder de não ter poder, esses são os fortes do reino, pois tem como protótipo aquele que não venceu os principados e potestades, com a sua “divindade”, mas na sua humanidade derrotou-os na Cruz [6].
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Notas
[1] João 17:1-5
[2] João 17:21-22
[3] Efésios 4:11-13
[4] João 10:11
[5] João 13:15
[6] Colossenses 2:14-15

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Evolucionismo & Criacionismo: Um diálogo

A Teologia deve ter como ontogênese [1] a ecologia, e não a imago dei, [2] não a imagem daquele que criou, mas de onde o criado imerge, não é negar a transcendência [3] do criador na criatura, mas re-conhecer a natureza como suporte sine qua non [4] para a existência da criatura. É um convite a andar numa linha tênue: “afirmar a natureza imanente [5] no homem tanto em sua composição química, quanto na influência bio-psico-lógica [6], que molda a dimensão psico-soma da existência humana”.

A ecologia afirma o entranhamento da natureza no homem, na imago dei eleva-se o homem acima dessa. O ser criado na antropologia teista [7] precisa reconhecer que o homem como o último na cronologia é dependente em comparação aos outros seres que habitam o planeta antes dele. A antropologia criacionista [8] tanto quanto a evolucionista concordam com sua peculiaridade, a capacidade de transcender o eleva acima dos demais seres.

Claude Lévi-Strauss diz: “A cultura surgiu no momento em que o homem convencionou a primeira regra, a primeira norma (LARAIA 2009)”.

O teísmo [9] crê que o homem desde a sua origem é superior a natureza, mas também tem na regra, a origem do des-vinculo com ela. Pré-supõe no teísmo a semelhança do evolucionismo, num determinado momento o homem vivia em harmonia sendo uma unidade com a natureza. O conflito surge em ambas às teorias através da norma ou regra, essa é a gênese da transcendência no teísmo: “O conhecimento do bem e do mal”.

A antropologia Darwinista tem na regra a evolução, a criacionista, não na regra, mas a quebra dessa, a regressão. Na primeira o homem é elevado a um estado superior, na segunda o inverso, ele sai de um estado “superior”, que seria a “ausência de conflitos”, para a “imperfeição”, que é atitude de criar, decidir por si mesmo, o certo e o errado. Na primeira a regra eleva, na segunda somente submetendo-se a ela o homem é elevado, manteria a ausência de conflitos!

A antropologia teista ou evolucionista são unânimes, em afirmar que houve um momento de transcendência:

“Todo comportamento humano se origina no uso de símbolos. Foi o símbolo que transformou os nossos ancestrais antropóides em homem e fê-los humanos. Todas as culturas se espalharam e perpetuaram através de símbolos” (LARAIA 2009; p55 op.cit. Leslie White). [10]

O comportamento humano, a faculdade de criar símbolos trouxe a des-harmonia, entre o homem e a natureza, houve um tempo em que às instancias da vida tinham duas dimensões: O Id [11] (Eu quero) com o Ego [12] (Eu posso), não existia Superego [13] (Eu devo)! A vida era afirmação dos desejos sem oposição da realidade, o símbolo deu significado, trouxe a cultura, homem e natureza deixaram de ser unidade.

A cultura eleva o homem acima dos animais, e transporta-o a dimensão dos conflitos geradores de neurose pela quebra das regras. Mas se a cultura é a gênese dos conflitos, entre as três instâncias da vida: Eu Quero X Eu Posso X Eu Devo? De onde surgiu esse ponto de interrogação (?), seria ele filho da cultura, nomeado pela psicanálise de “superego”!

Antes do superego a vontade de potência (Nietsche) era afirmativa “eu Devo”! Mas a afirmação cede lugar à interrogação “Eu Devo?” Alguma coisa aconteceu, a afirmação precisa da negação para ter sentido, a moral eleva o homem acima dos demais, mas toda ação produz re-ação, a eleva-ação gerou conflitos, ganhou transcendência, mas também a capacidade de se tornar neuro-òptico!

A origem da cultura para a antropologia Darwinista é o equivalente à lei da “arvore do conhecimento”, eleva o homem a uma nova dimensão. O estágio que antecede a norma mantém o homem num estado de igualdade com a natureza colocando-o na dimensão dos animais, essa dimensão que antecede as normas e a incapacidade de simbolizar tornava o homem igual aos demais seres. O surgimento desses símbolos eleva-o acima dos outros seres.

No teísmo, a norma não eleva, ela adverte em manter a harmonia. O homem sempre é considerado superior à natureza, a questão é: “Como ser superior aos animais sem a presença dos conflitos”? Não é o conflito com a natureza que diferencia o homem dos demais habitantes do planeta?Na antropologia teista, a narrativa do Gênesis infere que a “evolução” dar-se-ia justamente em “não ir além da norma”, de forma que a “norma” existe para ser mantida.

Nas duas teorias, a norma é fator sine qua non para a “evolução”, ou “degradação”! O teísmo traz implícito que o homem desde a sua origem é superior, e que a quebra da norma lhe colocou em conflito com a natureza causando a sua finitude (morte). O homem estaria em evolução com a ausência do conhecimento, ou seja, estaria evoluindo preservando-se de conflitos, pois o conhecimento deu origem à morte. No teísmo, a norma não deve ser quebrada, sua “transgressão” leva à “re-gressão”, pois nasce o conflito, a consciência, a subjetividade! No evolucionismo, a norma leva à “evolução”.

Os antropólogos elevam o homem a uma categoria suprema ao constatar que de todos os seres vivos é o único que tem noção de tempo, vive o hoje com o olhar no ontem e projeta-se para o amanhã. No entanto, reconhecem que esse mesmo homem é um dos mais frágeis na cadeia evolucionista, necessita de anos para ter um pouco de autonomia, e como os demais seres que já existiram antes dele, pode ter o final do seu ciclo no planeta.

O pré-suposto do teísmo inverte essa concepção ao afirmar que a teoria da superioridade do homem, criado a imago dei dá sentido à existência no tocante à finitude da vida. Em contrapartida, faz com que o homem abuse do “poder” que lhe foi outorgado, pois a transcendência deu-lhe a ilusão de que pode viver não só além da natureza, mas a submeter aos seus desejos!

A Antropologia Darwinista e a Teísta tem um ponto em comum: “Houve um momento que o homem se distanciou da natureza”! A discordância vem na seguinte indagação: “Foi uma Queda (teísmo) ou um Salto (evolucionismo)?”.

Na evolução: “O homem pró-gride”, vai para a dimensão da se-“para-ação”, ter consciência da finitude é evolução, dar-se-ia origem aos ritos.

O teísmo vai à contramão, ele re-gride, essa se-“para-ação” positiva na evolução é vista como negativa, a auto-nomia na antropologia Darwinista é vista como pró-gressão, já no teísmo é re-gressão, no evolucionismo o homem é auto-nomo, a regra vem de dentro, no teismo o homem é Teo-nomos vem “de fora”, abre mão da lei em si (dentro) para a lei além de si (fora)!

Na auto-nomia evolucionista ao terminar o ciclo da vida, o homem volta ao ventre da mãe natureza, no teísmo o homem cria símbolos, projeta seus anseios sabe que irá para o ventre da mãe, mas crê que voltará para os braços do pai! Religião é símbolo é desejo que palavras não podem expressar!

A filosofia teísta nem sempre concordou com a “queda”, Hegel interpreta a quebra da regra, (lei) como “Queda para cima”, nesse caso, o “fogo” roubado dos deuses trouxe luz aos homens (prometeu), o “abrir os olhos” trouxe o “conhecimento do bem e do mal” (judaísmo-cristão), a criação de regra-símbolo, deu a capacidade do homem transcender (Darwinismo).

A “auto-percepção”, implica conflito entre o “homem x deus (es)” (teísmo) ou a “criança x pai” (psicanálise), homem x natureza (Darwinismo). O Theos [14] adverte o antropos [15] que a quebra da norma marcaria o inicio do conflito, “abrir os olhos” enfrentar a “de-grada-ação” (Teísmo) ou a “e-voluir-ação” (Darwinismo).

No teísmo houve pré-juizo, trocar o não saber pelo saber, no primeiro há ausência de conflitos, mas haveria crescimento sem esses? No segundo (Darwinismo) a vontade de potência (Nietsche) nem sempre teria potência para executar sua vontade, o movimento do corpo na expansão iria encontrar na regra (lei) o seu reverso a contração!

A finitude e o desejo de pró-“longar” a vida, nisso concordam as duas antropologias, mas a evolucionista aceita a bio-lógica, na lógica da bio. O homem vai passar como passou os que passaram antes dele, contudo ninguém nega a necessidade da religião que nos símbolos empresta sentido à existência, ao menos faz o homem crer que é especial, afinal ele é diferente, ou pelo menos é o único que crê assim acerca de si mesmo.
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NOTAS
[1] Série de transformações por que passa o indivíduo, desde a fecundação do ovo até o ser perfeito; ontogenia.
[2] É a doutrina de que o Homem foi criado à Imagem Divina. É a resposta bíblica a como surgiu o Homem, Criatura singular entre as existentes.
[3] s.f.1. Qualidade do que é transcendente; excelência; superioridade. 2. Sublimidade. 3. Grande importância.
[4] (locução latina sine qua non, sem o qual não)adj. 2 gén. 2 núm. Indispensável essencial (ex.: condição sine qua non).
[5] adj. 2 gén.1. Que não desaparece ou não se vai. 2. Permanente. 3. Inseparável do sujeito.
[6] Bio: pref.1. Exprime a noção de vida (ex.: biografia). 2. Exprime a noção de biologia ou biológico (ex.: biodiversidade). Psicológico adj.1. Pertencente ou relativo à psicologia.
[7] (antropo- + -logia)s. f.1. Estudo do homem considerado na série animal. 2. História natural do homem. teísta adj. 2 gén. s. 2 gén. Que ou pessoa que crê na existência de Deus.
[8] Antropologia idem 7, mas estuda o homem a partir da crença de o homem foi criado a imagem e semelhança do seu criador.
[9] O teísmo (grego theós, - oú, deus + - ismo) s.m. Crença na existência de Deus.
[10] LARAIA, Barros roque de. Cultura. Um conceito antropológico. 24ª edição. Editora Zahar. Rio de Janeiro – RJ. 2009.
[11] Id: conjunto de energias psíquicas que determina os desejos do sujeito
[12] Ego: estrutura onde está todo conhecimento que o indivíduo possui de si e sobre o meio
[13] Superego: estrutura que se desenvolve a partir do conhecimento mora e valores do indivíduo. Representa a mora dentro do indivíduo.
[14] Theos: Palavra grega para designar: “Deus”.
[15] Antropos: Palavra grega para designar “Homem”.
Fonte de consulta: http://www.priberam.pt/

Esse artigo foi postado originalmente no blog: CPFG (Confraria dos pensadores fora da gaiola)

sábado, 22 de maio de 2010

Ruptura na Reflexão Teológica

A década de 70 foi marcada por uma ruptura epistemológica da teologia. Nasce a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, gerada nas entranhas de uma reflexão “arbitraria” do ponto de vista ortodoxo-católico, alguns chegam a dizer que foi uma “resposta”, a ORTODOXIA, essa teve nos seus principais propagadores LEONARDO BOFF, RUBEM ALVES, MIGUEZ BONINO, JOSE COMBLIN, JUAN LUIZ SEGUNDO, CLODOVIS BOFF, FREI BETO, entre outros.

Da impressão que houve uma conspiração do pensamento contra toda ORTODOXIA, essa ruptura aconteceu também na ORTODOXIA-EVANGÉLICA, com o PACTO DE LAUSANE, uma resposta a ORTODOXIA PROTESTANTE (Evangélica).

JOHN STOOT, teólogo britânico, e o Equatoriano RENÉ PADILHA, inauguraram uma virada hermenêutica BATIZADA pelo nome de MISSÃO INTEGRAL. As duas vertentes mais expressivas do cristianismo, se “REBELARAM”, tinham em comum a quebra com o pensamento tradicional.

A nova “TEOLOGIA CONTEXTUAL” foi à mudança paradigmática no pensamento teológico; 1976 foi o que podemos chamar de “A SAIDA DA GAIOLA TRADICIONAL DO PENSAMENTO TEOLÓGICO”, tanto católico como protestante!

A história do pensamento mostra um movimento cíclico, e a fundamentação dessa teologia não foi EX-NIHILO, pois séculos antes, FRIEDERICH SCHLEIERMACHER (1768-1834) antecedeu a tese primária dessa ruptura quando concluiu:

“Toda reflexão teológica era influenciada, e até determinada, pelo contexto na qual evoluíra, impossibilitando de haver uma “pura”, supra-cultural, e a - histórica; era impossível penetrar até um resíduo da fé cristã que já não fosse num certo sentido interpretação”.

Desde a ocidentalização do cristianismo em Constantino, a reflexão teológica fazia um movimento da elite “alto”, para os laicos “baixo”, a ESPOSA era a ESCRITURA, o SÊMEN era a DIALÉTICA com a TRADIÇÃO, e a FILOSOFIA o ÓVULO, que fecundava no encontro com o seu interlocutor, o HOMEM ELITIZADO.

Sair da gaiola foi à inversão dessa epistemologia, agora seria a partir de baixo “LAICO” aquele que está às margens, a escritura permanecia como ESPOSA, o SÊMEN continuava sendo a DIALÉTICA, a FILOSOFIA e a TRADIÇÃO, sempre férteis, mas a CIÊNCIA entra no relacionamento “EXTRA-CONJUGAL” e GEROU uma filha chamada SOCIOLOGIA.

Essa com vigor começa a disputar o lugar de sua genitora, e o seu interlocutor não seria mais a elite “DOUTA”, mas, sim o pobre, “BAIXO”, o in-douto culturalmente marginalizado.

As epistemologias TRADICIONAL (ortodoxa) e CONTEXTUAL (terceiro mundo) é exposta da seguinte maneira por Sérgio Torres:

“TRADICIONAL: A verdade é conhecida de conformidade com a mente a um determinado objeto, esse conceito se confirma ao mundo existente e o legitima. OCIDENTAL: A verdade não é conhecida de conformidade da mente ao objeto (dialética), é oposto, o mundo é um projeto não concluído e em construção, um processo em transformação”.

O CLERO tinha a BIBLIA e a TRADIÇÃO como objeto da reflexão, o mesmo ocorre com a ala chamada PROTESTANTE, que tem como interlocutor a BIBLIA, não descarta a TRADIÇÃO, mas a VERDADE não é mais PRÉ-FIXA, ponto em comum na ortodoxia católica e na evangélica:

“Lançar fora o filho bastardo batizado por nome LOGOS (lógica) “INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL” tendo por pai o Deus grego”.

A nova epistemologia não descarta a “TEORIA NA REFLEXÃO”, mas sua ênfase recai na “PRÁXIS” essa é a julgadora que determina a “VERDADE” na teologia; a “Reflexão crítica sobre a práxis cristã à luz da palavra de Deus.” (Gutierrez).

A ASCESE geradora da salvação META-FÍSICA perdeu a META, pois na física, o céu não tem local fixo, o DOGMATISMO, sinônimo de INCAPACIDADE DE DIÁLOGAR COM O DIFERENTE, fechou-se para a ciência, essa foi CONTEXTUALIZANDO a sua COSMO-VISÃO de acordo com o CIENTIFICISMO que deixava duas opções:

“Dialogar com as ciências, principalmente as humanas, ou ficar fossilizadas, descontextualizadas e irrelevantes para a sociedade”.

Surge a neo-ortodoxia, a bíblia deixa de SER para con-TER a palavra de Deus, a subjetividade, de-termina, já não é mais a vertical a nascente da leitura, mas a horizontal, a teologia deixa de ser o solucionador da CRISE, e passa a ser a teologia da CRISE, até o mito foi intimado a se explicar, caso se explique, deixe de ser mito, se não, cale-se, deixe a razão falar!

A HISTÓRIA faria a CRITICA, teria a liberdade para RELATIVIZAR TODO O ABSOLUTO, que venha contra a VIDA, afinal o epítome da fé cristã é a RESSUREIÇÃO DO CORPO e não a IMORTALIDADE DA ALMA, por isso, tanto a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO (católica), quanto a MISSÃO INTEGRAL (protestante), tem a seguinte epistemologia em comum:

“A VERDADE não é mais metafísica, mas sim é uma construção histórico-cultural & contextual”, o CORPO é o objeto da reflexão, não mais a “ALMA IMORTAL”, a teologia deixou de ter uma VERDADE ABSOLUTA, para ter uma VERDADE HISTÓRICA, afinal o verbo se tornou CARNE, toda reflexão começa nas dores do CORPO e não nos anseios da ALMA”.

O CORPO tornou-se o principal interlocutor, e o diálogo não é mais a VERDADE PRÉ-EXISTENTE, firmada no IDEAL do SER que “É”; o mundo não precisa ser INTERPRETADO para que o SUJEITO se ajuste a ELE, agora, ele precisa ser TRANSFORMADO, a relação entre SUJEITO e OBJETO não é mais de PASSIVIDADE, contemplação “olhar para”, não é admirar a beleza do COSMOS, mas sim de ATIVIDADE, “entrar em, participar, mudar”, transformar a desordem do caos em cosmos!

A reflexão não é sobre o LOGOS que se fez DISCURO COERENTE, mas sobre o LOGOS que entrou num corpo e através dele não sistematizou a vida, o ONI-POTENTE torna-se IN-POTÊNTE e grita: ELOI ELOI LAMA SABACTANI, o Deus que está em todos os lugares, encontra um lugar em que está “SÓ”, o corpo de “CARNE”. O eterno experimenta o fim, a vida se encontra com a morte, e faz uma aliança de sentido!

Nenhuma construção poderia tentar esgotar o falar de Deus, pois o que se fala D’Ele hoje, não pode ser absoluto, a mesma fala que absolutiza o poder do “DEUS QUE FAZ”, encontra o PARADOXO, quando “O DEUS QUE FEZ” , não “FAZ”!

O MOMENTO HISTÓRICO é outro, a vida é movimento, o tempo passa a ser o RELATIVIZADOR DAS CERTEZAS, assim como nas outras dimensões do saber, afinal de contas se a teologia tem alguma posição não é de RAINHA DAS CIÊNCIAS, mas de SERVA dos homens que pensam, e OPRESSORA DOS IGNORANTES!

Não é relativizar o PODER DE DEUS, mas sim, não absolutizar o SABER DE DEUS, essa ruptura dá uma nova vida a chamada TEOLOGIA DA MISSÃO INTEGRAL, onde a antropologia, não dicotomiza, mas torna-se HOLÍSTICA, não se fragmenta em TESE e ANTI-TESE, mas interage numa SIM-BIO-SE com a filosofia HEGELIANA de que toda TESE, tem sua ANTI-TESE, que forma uma SIN-TESE, e que novamente volta formar uma TESE e tudo sempre volta ao ponto de onde partiu!

Mas surge a pergunta: “Fracassou a teologia da libertação e a missão integral”? No meu ponto de vista não! O que houve foi uma expectativa muito acima da realidade na época em que emergiu. No entanto a semente foi plantada, e já podemos colher frutos hoje, cada um que foi impactado mudou a sua reflexão, sua vida e atingem outros.

Meus tributos a esses que  são os pré-cursores da reflexão que não aceitaram viver enclausurados nas suas certezas, fizeram da dúvida instrumento pedagógico para o desenvolvimento da reflexão!

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

Zeus, Yavé ou Jesus?

As definições teológicas que fazemos a respeito da pessoa de Deus são realmente conceitos veterotestamentário, Neotestamentário, ou uma mistura de tudo, não será uma definição mais perto do deus Zeus, que o Yavé dos hebreus? E muito menos ainda do Jesus encarnado? Essa teologia é firmada numa revelação dialética, ou um processo estático?

 Enquanto Zeus fica numa redoma intocável, observando o mundo de forma indiferente, o Deus Yavé, sempre se revelou numa esfera existencial, relacional, não numa forma de silogismo filosófico, onde a transcendência deixava o “deus” totalmente ausente da vida humana, onde o homem vivia apavorado, sempre buscando aplacar a ira do seu “deus”, diga-se de passagem, que esse Deus grego sempre esteve irado!

 Se voltarmos às origens da teologia determinista, veremos que os judeus já tinham esse pensamento exclusivista de “Eleição incondicional”, ou “Predestinação”, no entanto vemos o Deus Yavé sempre os exortando, ao arrependimento, diga-se que não foram poucos os cativeiros que o povo passou.

 Basta ver que mesmo em cativeiro o povo achava que Deus os tinha abandonado, essa era a consciência que eles tinham, pois responsabilizavam Deus por suas decisões, como se suas decisões fossem responsabilidade de Deus. Ignorando que esse Deus que eles achavam que era responsável por seus infortúnios, sempre mandava profetas para adverti-los de seus maus caminhos [1]

 O apóstolo Paulo faz uma severa advertência para com a segurança excessiva de Israel, dizendo que os “ramos” foram cortados quanto mais seriam os que foram “enxertados”, também terão o mesmo destino se não perseverarem. [2]

 Vemos a mesma advertência de Jesus [3], embora seja inegável a contribuição de Agostinho para a teologia, não podemos negar que o conceito grego determinou sua definição sobre a natureza de Deus, foi a helenização do contexto de sua época que sem dúvida moldou a sua mentalidade de forma que Deus sempre foi definido como alguém que sempre está na esfera da meta-física!

 Será que o deus da filosofia é o Deus que se revelou a Abraão, Moisés, e os profetas, que sempre mandava uma mensagem dentro de um arcabouço histórico? Colocando nomes da sua pessoa de acordo com a circunstância do momento, pois se o homem estava enfermo, logo ele se revelava como o Deus que cura numa guerra ele se identificava como o Deus dos exércitos, tanto de forma coletiva quanto de forma individual.

Ele se revelava de forma relacional, alcançando seu ápice na encarnação “o logos transcendente, agora torna imanente”, pois esse logos que era atemporal decidiu agora ter um início de existência, sujeitando-se às leis que ele mesmo criou, subjugando-se aos limites que com certeza o “deus grego”, não se submeteria!

 O Deus transcendente dos gregos era intocável, inacessível, o “Logos”, que eles conheciam imutável, não tinha uma existência relacional, dialética, não interagia com a criatura.

Se partirmos do pressuposto vetero-testamentário que a revelação de Deus é progressiva e obteve seu auge no filho [4]. Então devemos rever nossos conceitos de que uma premissa verdadeira sobre Deus deve ser esgotada com afirmações e possibilidades de um Deus que a própria reforma defende ser “Onipotente”. Os conceitos teológicos formais são tentativas de assegurar as premissas ocultas por trás do conteúdo bíblico [5]

 Deus não é apenas metafísico, “anacrônico”, mas um Deus que “age”, decidiu voluntariamente ser temporal, experimentando uma curta existência terrena, como é comum aos seres humanos. Ele “interage” na história, quando Deus se revelou a Moisés ele não elaborou proposições acerca de seu caráter, mas mostrou o seu poder com “ação”.

Ou seja, ele não disse que era onipotente, mas agiu na história; manifestou-se ao próprio Moisés a quem Ele mesmo se revelou [6]. O que nos salva não são verdades formuladas em frases, mas Deus mesmo se dá como salvação.

A Epistemologia helenista vê a verdade como algo estático, como um pensamento, o “conhecer” independe do “fazer”, dessa forma o mundo não pode ser transformado pela participação humana, pois ele foi criado por Deus que decretou tudo (Até mesmo o mal?!).

Contempla tudo ocorrendo como planejou conseqüentemente as orações são subjetivas, e porque agir, se tudo vai acontecer independente da ação humana? Na cosmo-visão grega de Deus, a “teoria” é o que importa, a “práxis” é somente um efeito, da causa primária que é Deus.

Essa epistemologia é contraditória a teologia cristã, pois a verdade não é somente “teórica”, tampouco “abstrata”, mas sim “histórica”, a verdade “Veio" [7] e somos instruídos a praticá-la [8]. Os religiosos dos tempos de Jesus conheciam a lei e suas ordenanças, no entanto Jesus os advertiu que o conhecimento da verdade incluía uma atitude prática [9]. “Na Bíblia, porém, há um conceito de verdade diferente e fundamental: A verdade é o que acontece, aquilo que Deus faz [10]”.

 Não é de se estranhar que Marx chamou o cristianismo que ficava alienado dos eventos históricos de “Ópio do povo”, do ponto de vista dicotômico em que os reformadores viam a matéria, onde o “Espírito” era bom e a “Matéria”, era impura, (diga-se de passagem, que esse também era o conceito de origem gnóstica oriunda dos gregos, visto que na teologia reformada o pecado é herança determinada [11], é lógico que a igreja não deveria se envolver com obras de cunho social (por ex: como política), visto que a Igreja deveria viver uma espécie de “Ultra-mundanismo”.

O alvo era somente manter o espírito puro, o que fez com que a Igreja ganhasse muitos antagônicos à sua teologia. (Os mosteiros foi o efeito de uma teologia Utópica de ultra-mundanismo). C. René Padilla faz uma observação sobre esse pensamento:

“A salvação futura da alma, na qual o sentido da vida temporal se esgotava numa preparação para o “ultramundo”, a história é assimilada por uma escatologia futurista e a religião se converte num meio de escape da realidade presente. O resultado é o total desconhecimento dos problemas sociais, em nome da “superação do mundo”.[12]

Esse conceito de “conhecer” é antitético ao conceito vetero-testamentário, haja vista que “conhecer”, para o judeu não é pensar de forma abstrata e filosófica, mas a uma ocorrência pessoal, como por ex; expressa o termo “Yada”, usado como forma de conhecimento numa relação conjugal. [13]

 “O conhecimento no AT, não fica na esfera da meta-física, mas é algo recíproco, Deus se dá a conhecer revelando ao homem a sua vontade e reagindo quando este não corresponde com as suas expectativas”. [14] Rudolf Bultman fez a seguinte observação quanto à epistemologia do A T:

 “O conceito do conhecimento no AT, não é determinado pelo pensamento de que a realidade daquilo que é conhecido é mais puramente percebida se o relacionamento, pessoal entre aquele que conhece e o objeto do conhecimento é eliminados, e o conhecimento reduzido a um olhar à distância. O oposto é verdadeiro; o conhecimento ocorre se o significado e a afirmação do objeto do conhecimento são percebidos e efetivados" [15]

 Essa definição de Bultman está de acordo com a teologia Bíblica, pois a salvação não consiste em acreditar que é eleito, calando sua “segurança” numa série de proposições estáticas, mas na firme convicção de que o Deus que não exclui a filosofia como um meio de revelação, vai além da lógica de qualquer premissa por mais verdadeira que seja.

 Se Deus é tão poderoso como acreditamos que Ele é, então temos que conviver com paradoxos que a nossa mente não conseguira conciliar.

“A fé em seu sentido primário consiste na adesão total ao Deus vivo e não simplesmente na aceitação de um credo de proposições, no depósito da fé, estão contidas as verdades necessárias a nossa salvação, a teologia possui uma função de explicitação das verdades deste deposito sagrado procurando o novo entre os vários mistérios e sua articulação com a razão humana”. [16]

A Teologia deve ser dialética e não estática, universalizar um dogma pode levar à paralisia denominacional, onde o “orgulho”, de se denominar “ortodoxo”, muitas vezes faz com que Deus levante outros para dar continuidade onde o “ufanismo”. Estagnou!

 Somente Deus pode falar D’Ele mesmo, e dizer que tem a “patente” da Teologia, pois sem dúvida ele tem a verdade absoluta daquilo que fala; o que nós falamos D’Ele são “verdades”, (mas não absolutas no sentido de esgotar todo o conhecimento daquilo que falamos!), pois poderão tornar-se até contraditórias se não olharmos essas “verdades” com outras verdades que são até mesmo paradoxais no falar de Deus.

Deus é o Deus, que está “ativo na história”, realizando conjuntamente com o homem a restauração de todas as coisas.
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Notas
[1] Jeremias 17:7-10
[2] Romanos 11:11-24
[3] João 15:1-6
[4] Hebreus 1:1-3
[5] Bruner: 1984 p.154
[6] Êxodo 4:1-7[7] João 1.17 Veja que o texto diz que a lei foi dada por Moisés, isso não que dizer que não havia verdade na lei, mas sem a graça de Jesus essa verdade não poderia ser experimentada no âmago da experiência prática.
[8] A verdade como teoria, não foi excluída por Jesus, no entanto, Ele mostrou que a verdade pode também ser conhecida quando alguém praticar os seus mandamentos, ou seja, as práticas dos seus mandamentos é uma forma de se “Conhecer a verdade”. Cf João 3.21.
[9] João 8.34
[10] Shuarz, op.cit. Bruner. p.59.
[11] Creio que houve uma perda da retidão original, uma inclinação natural para o egoísmo, a satisfação própria, no entanto, não creio que esse pecado depravou o homem totalmente, como ensinava Agostinho, e em continuidade da sua teologia a reforma aderiu a essa concepção. Embora compreenda a que os reformadores quiseram defender o sinergismo na salvação no contexto da Igreja Ocidental.
[12] Padilla: 1992.p.33
[13] Gênesis 4:1
[14] Gênesis 6:6, 1 Samuel 15:11, Salmos 50:16-21, Amós 7:3
[15] Bultman: 1953.p.697
[16] Boff: 1981.pp. 80-81

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Arquétipos que estruturam a religião

Jesus percebeu estrutura opressiva da religião, viu o mal que ela causava, e agiu em oposição a ela, o vicio sempre foi o “PODER”, uma estrutura arquetípica [1] construída através da lei, desde os tempos do "fruto do conhecimento do bem e do mal”Ele lutou contra essa estrutura psicológica, relativizou todo o poder que domina, mostrou a FORÇA da NÃO FORÇA, não só como o amor supera a lei, mas que o amor é maior lei, e que há um PODER maior do que o PODER é o PODER DE NÃO TER PODER!

Lucas registra uma série de acontecimentos a partir do capitulo 17: 11, falando da oposição entre a HUMILDADE do estrangeiro que ao ser curado da lepra volta para AGRADECER, esse não era judeu, “E prostou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era Samaritano”. (Lucas 17: 16). Nessa narrativa, o rejeitado, é aceito a GRATIDÃO, é ANTÍ-TESE da AUTO-SUFICIÊNCIA!

Creio que essa narrativa foi registrada pelo INCONSCIENTE de Lucas ele estava des-construindo a epistemologia do PODER QUE OPRIME, para a SUAVIDADE DO AMOR, ainda na seqüência, Lucas registra que Jesus quebra a apocalíptica judaica de PODER, interrogado sobre a vinda do reino, ele desconstrói mais um ARQUÉTIPO ao dizer que: “Esse REINO não vem com APARENCIA EXTERIOR”, não era algo que viria “DE FORA”, mas algo implantado “DE DENTRO”, e refletiria “PARA FORA!” (Lucas 17:20-21).

O raciocínio seqüencial dessas narrativas segue no capitulo 18; des-construindo o poder DOMINANTE, da religião e IMPÉRIO ROMANO, na parábola ele amplia e coloca um JUIZ, uma figura romana conhecida também na história da nação judaica e mostra a FORÇA dos FRACOS.

A viúva conseguiu não pelo PODER DE DOMINIO, mas sim por um poder maior, o da HUMILDADE (Lucas 18: 5). Essa é mais uma des-construção do arquétipo instituído no inconsciente coletivo da nação DOMINADA (Israel) e dominante (Roma).

Jesus segue demolindo os paradigmas [2] certamente para mostrar a dimensão do que havia falado anteriormente, sobre o êxito da viúva frente ao Juiz, “LEPROSO E VIÚVA”, eram duas classes de pessoas totalmente rejeitadas no contexto social da época!

Ele prossegue dizendo que o orgulho do PODER manifesta através da oração do FARISEU que revelava arrogância, e a insuficiência do NÃO PODER na oração do publicano revelava a essência da justificação no reino, pois não é o poder para FAZER, esse foi DES-CONSTRUÍDO, mas sim a HUMILDADE foi exaltada. A arrogância sempre foi patente da religião! (Lucas 18:9-14), o publicano [3] é mais uma classe des-classificada, que foi classificada para o reino!

O evangelista Lucas na seqüência narra a atitude dos discípulos em impedir as crianças de ir até Jesus, mas ele diz: “Deixai vir a min as criancinhas, pois das tais é o reino dos céus”! (Lucas 18:16). A atuação da religião farisaica com sua estrutura psicológica de DOMINIO, não conseguia ver nas CRIANÇAS um modelo de força.

Um príncipe pessoa de alta patente na sociedade presencia o acontecimento e não suporta ver Jesus dizer que o reino vem com gratuidade, e pergunta:  “Bom mestre o que farei para herdar a via eterna?” (Lucas 18:18)

“O QUE FAREI PARA HERDAR”? Ora Jesus havia acabado de dizer que o arquétipo que estrutura a mente dele na encarnação não é o PODER PARA FAZER, mas o poder de NÃO FAZER! Ao dizer que a FORÇA do reino tinha nas crianças o seu modelo, e que os adultos tinham na simplicidade delas o protótipo ideal.

“O que se poderia fazer para herdar a vida eterna?” Ora, herança não se conquista, não é uma ação do sujeito, mas algo que ele recebe! Só há uma coisa a fazer: “È não fazer”! Aceitar passivamente a graça de Deus em Cristo!

Jesus estabelece um reino que é antitético à estrutura dominante, nesse, ficariam de fora os “fortes”, “justos” “auto-suficientes”, as “obras” como justificadora do SER, e seriam inclusos, os “humildes”, “insuficientes”, e a “fé”, como base da nova ordem.

A Alteridade [4] em Cristo não só despolariza o poder dominante, como dilui todo espírito de AUTOSUFICIÊNCIA que é o orgulho de toda religião.
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Notas
[1] Na psicologia analítica, significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar. C. G. Jung usou o termo para se referir aos modelos inatos que servem de matriz para o desenvolvimento da psique.

[2] Paradigma (do grego parádeigma) literalmente modelo, é a representação de um padrão a ser seguido. É um pressuposto filosófico, matriz, ou seja, uma teoria, um conhecimento que origina o estudo de um campo cientifico uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas.

[3] Publicano é o nome dado aos coletores de impostos nas províncias do Império Romano.Buckland afirma que havia duas espécies de publicanos: os publicanos gerais que eram responsáveis pela renda do império, frente ao Imperador e os publicanos delegados por estes em cada província.

[4] A palavra alteridade, que possui o prefixo alter do latim possui o significado de se colocar no lugar do outro na relação interpessoal, com consideração, valorização, identificação e dialogar com o outro. A pratica alteridade se conecta aos relacionamentos tanto entre indivíduos como entre grupos culturais religiosos, científicos, étnicos, etc.